Alguns sonhos nascem cedo e insistem em permanecer. Com a extremense Luana Aparecida Rodrigues foi assim. Ainda menina, enquanto preenchia cadernos da escola, desenhava kombis e repetia que um dia moraria em uma delas. Anos depois, o desejo ganhou forma, rodas e estrada. Hoje, aos 29 anos, Lua, como é conhecida, divide a vida com o companheiro Jeferson Sehn e o cachorro Hans na Kombi Sabiá, modelo 2005, transformada no lar e no ponto de partida de um projeto de vida que mistura crochê, natureza e encontros.

Filha do meio de dona Cristina e seu João, Lua cresceu no bairro da Roseira, em Extrema. A infância simples foi também fértil em experiências ao pé da Serra da Mantiqueira. O tempo corria entre trilhas, acampamentos, luaus e banhos de cachoeira.

Até os 22 anos viveu na cidade, concluiu o ensino médio e trabalhou em indústrias locais. Em 2016 cursou fotografia e passou a registrar eventos. O último emprego com carteira assinada veio em 2018, na agência de publicidade Cadabra, experiência que também lhe trouxe repertório para atuar com redes sociais. Mesmo assim, algo parecia fora de sintonia.

No mesmo ano, durante uma viagem a Florianópolis, conheceu Jeferson. O encontro mudou o rumo da história.

– Com seis meses de namoro, me desliguei do emprego, deixei a família e amigos para tentar a vida onde mal conhecia, confiando no amor de verão. Não imaginava que, em três meses morando em Floripa, viveria uma pandemia que mudaria tudo!

Foi nesse novo cenário que a Kombi voltou a ocupar seus pensamentos. Após três meses de buscas na internet, o casal encontrou o veículo ideal. A transformação em casa foi feita com as próprias mãos, usando materiais de reuso e refugo garimpados pelo caminho.

A estrada começou antes mesmo de tudo estar pronto. No primeiro dia, alegria e receio viajaram juntos. O plano era simples: seguir em frente e ir construindo o lar conforme as necessidades surgissem.

Sempre gostei de estar em contato com a natureza, ver o sol nascer e se pôr. Estando em uma empresa, isso era impossível

– Assisti vídeos de pessoas que já viviam como eu gostaria, mas vi que cada realidade é única. Seguimos o nosso flow e aprendemos muito na prática, recalculando rotas, literalmente.

Os trabalhos manuais já faziam parte da vida de Lua desde cedo. Aos 10 anos, em um projeto social do bairro, aprendeu crochê, tricô, bordado, pintura e costura. Durante anos a técnica apareceu como companhia silenciosa em suas viagens, até ganhar outro papel.

Em 2019, nas ruas de Florianópolis, passou a vender peças criadas de forma intuitiva. O crochê virou renda e linguagem artística. Durante a pandemia, quando o mundo migrou para o digital, ela acompanhou o movimento e encontrou novos caminhos.

O crochê foi me mostrando que era possível ocupar espaços que nunca imaginei

Com o crescimento do trabalho online, passou a ensinar o que aprendeu. Criou a comunidade Ecoando Saberes, onde mulheres do Brasil e do exterior se encontram mensalmente para crochetar. Também nasceu o projeto social Ecolua, desenvolvido com o companheiro, que une oficinas de crochê e psicologia em comunidades por onde a Kombi passa.

A Sabiá não é apenas transporte. Ela impõe um ritmo próprio.

– A Kombi é um convite para desacelerar, pois ela faz 80 km/h. É como se estivesse assistindo à TV da vida real enquanto crocheto. Permite apreciar o caminho, seguir o ritmo da alma.

As escolhas também refletem um modo de viver mais ecológico. Nos fios, nos materiais reutilizados e até nas peças feitas com sacolas plásticas ou chinelos reaproveitados.

Ainda há planos no horizonte. Lua quer envelopar a Kombi de verde-oliva, estampar o logo do Ecolua e ampliar o alcance das oficinas sociais pelo país. Sonha também em transformar as experiências da estrada em livro.

No fundo, tudo segue a mesma lógica que aprendeu com a agulha e o fio.

– Gosto de dizer que sonhos são realizados igual ao crochê, por etapas. É preciso ter o básico: uma agulha e um fio. Primeiro se aprende a laçada inicial, depois correntinhas, base para criar os próximos pontos. Baixos, altos, e até mesmo pontos baixíssimos, como a vida.

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