
Prof.ª Lourdinha
Professora de Língua Portuguesa e vice-diretora da EE Odete Valadares.

Professora de Língua Portuguesa e vice-diretora da EE Odete Valadares.
Uma história simples que revela reflexões profundas sobre organização urbana, desigualdade e as ‘numerações invisíveis’ da vida. A partir de um episódio cotidiano, a autora provoca o leitor a pensar sobre como a sociedade se estrutura e como encontramos — ou perdemos — nossos próprios caminhos.
18 de março de 2026 - 3 semanas atrás

A cidade era pequena, mas não uma pequena qualquer, era do tipo que esconde ou mostra, depende do ângulo de onde se mira, uma grande riqueza. Não riqueza do tipo que fica nela, mas do tipo que passa por ali. Então, antes que eu mesma possa me perder nessa escrita que pretende ser um artigo, pois tem o objetivo claro de tentar dirimir algumas inquietações. Eu confesso. E a inquietação do momento pode ser traduzida em achar uma linguagem clara para que se possa encontrar o 552.
Preciso transformar em história para que possa existir, lembrando-me e agora faço valer, Javier Cercas (2007) em A velocidade da luz de que afirma: “As histórias não existem. O que existe, sim, é quem as conta.” Pensando no dito, passo a existir dentro do que com uma certa condescendência, poder-se-ia chamar de artigo.
Domingo ensolarado, lindo de se viver. Arrumava a casa e fazia comida, o parêntese aqui é que gosto de cozinhar para mim. Boa mineira. Naquele momento em que o fundo das panelas enfumaça, o gás dá o seu último suspiro. Resignadamente pego a bolsa, desço a rua. Sim, há um fornecedor a um quarteirão abaixo do meu. Compro dois gases, deixo o meu endereço e retorno à minha residência, aguardava tranquilamente, com a certeza de que meu pedido chegaria rapidamente. E chegou.
Necessário se faz descrever o tipo de casa alugada onde moro. Dividida em duas, frente e fundo, próximo ao portão por onde entro está o número 552 e frente ao portão mais adiante, o proprietário ou, talvez um parente do mesmo, decidiu em uma reforma colocar uma campainha, uma caixa de correio e, pintado de branco sobre a tinta cinza da parede o número 552 e logo abaixo do mesmo, casa 1. Achei interessante. Ao lado do meu portão que vinha primeiro, apenas 552.
Eis que ouvi alguém gritando algo incompreensível e resolvi chegar à janela, havia um moço com dois bujões de gás na moto para quem eu disse: – É aqui. Ele veio com uma certa raiva, uma vez que havia parado longe do meu portão. Apontei onde estava o bujão a ser trocado e ele falou bravo: – A senhora passou o endereço errado, por isso parei no portão de baixo. Eu ia discutir, mas o domingo estava tão bonito que perguntei curiosa: – E como é que eu deveria pôr o endereço para me fazer entender? Ele respondeu: – O certo era colocar número 552 que fica antes da casa 1. Fiquei apenas olhando para ele, o que o motivou a descrever sobre a numeração das casas da cidade que não seguiam padrão algum.
Meus pensamentos divagaram entre a forma como a cidade foi ocupada, o nível de especulação imobiliária e sobre como esse problema poderia ser resolvido, pensando na numeração das casas, como se as pessoas que as habitavam pudessem ser divididas entre quem recebe e sempre receberá, quem paga e sempre pagará, não como algo dado, mas algo assim construído. Números embaralhados, mas não tão aleatórios como parecem.
Antes de sair, ele olhou para mim desejou:
– Feliz dia da mulher!
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