2200 Caracteres com
Juliana Abrante: ela decidiu ir além dos próprios limites
Juliana Abrante
01 de outubro de 2026
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01 de outubro de 2026

Juliana Abrante, 41 anos, aprendeu cedo que algumas conquistas exigem disposição para enfrentar obstáculos e agarrar oportunidades. Filha de nordestinos que ainda jovens migraram para São Paulo em busca de melhores condições de vida, cresceu em uma família simples e encontrou no esporte uma paixão que, anos depois, se transformaria em profissão.
Nascida na capital paulista, guarda boas lembranças da infância. “Eu brincava muito na rua e adorava brincadeiras de menino – jogar bola descalça, carrinho de rolimã, patins, skate, empinar pipa, pular rampas de patins entre outras.”
Profissional de Educação Física, personal trainer, empreendedora e atleta de fisiculturismo, Juliana sempre gostou de esportes: era do time de futebol da escola e participava de apresentações de dança e teatro. Fez aulas de dança em um centro cultural, em São Paulo. “Eu sempre pedia para minha mãe fazer minha inscrição. Como as aulas eram gratuitas, era preciso enfrentar fila e renovar a matrícula a cada três meses.”
Até os 15 anos morou na capital paulista, e ano 2000 se mudou para Extrema junto com a família. “Essa cidade me acolheu. Aqui, encontrei muitas oportunidades e pessoas maravilhosas que apareceram no meu caminho e me estenderam as mãos.”
Formação e trajetória profissional
O gosto pelo esporte e pela dança já apontava um caminho. Mas foi trabalhando em uma academia que Juliana encontrou o incentivo decisivo para escolher a Educação Física como sua primeira formação.
“Trabalhei como recepcionista na academia Planet Corpus, do Lívio Olivotti. Eu já gostava de treinar e ele me incentivou muito. Foi um grande responsável pela minha escolha, porque me deu oportunidades dentro da academia e, a cada dia, fui me interessando mais pela profissão.”
O caminho até a formação, porém, exigiu esforço. Quando iniciou a licenciatura, Juliana trabalhava na Caixa Econômica e o que ganhava era destinado ao pagamento da faculdade. Sem condições de arcar também com o transporte, assumiu a função de coordenadora do ônibus que levava os estudantes. Mais tarde, conseguiu o apoio do FIES. Apesar das dificuldades, lembra daquele período com carinho — estava, afinal, construindo a profissão que havia escolhido.
E ela não esperou o diploma para começar a acumular experiências. No Departamento de Esportes de Extrema, atuou na área administrativa e participou da organização de eventos como motocross, campeonatos de futebol, voo livre e atividades para o Dia das Crianças. Foi também ali que percebeu uma oportunidade e propôs a criação de aulas de aeróbica para os períodos em que a hidroginástica e a natação eram prejudicadas pelo frio ou pela chuva.
A rotina profissional se multiplicava. Juliana ministrou aulas de hidroginástica e dança em projeto de período integral, trabalhou com ginástica laboral na Multilaser e deu aulas de Jump em um estúdio. Paralelamente, continuava estudando e ampliando sua formação. Tornou-se também massoterapeuta, atividade à qual hoje não se dedica mais por falta de tempo.
Anos depois, uma nova experiência despertaria outra curiosidade. Ao acompanhar o marido nas competições de fisiculturismo, Juliana passou a observar de perto as transformações provocadas pela preparação de um atleta.
“Eu achava o máximo as mudanças no físico. Como já trabalhávamos com consultorias, procurei uma pós-graduação que reunisse tudo aquilo que eu tinha curiosidade de aprender e que pudesse enriquecer ainda mais nosso trabalho, inclusive na preparação de atletas para o palco.”
A busca a levou à pós-graduação em Bodybuilding e Coaching, aproximando conhecimento acadêmico e uma modalidade que, pouco depois, ela própria decidiria experimentar na pele. Sua formação ainda ganharia outro capítulo: anos após concluir a licenciatura, Juliana fez também o bacharelado em Educação Física, em São Paulo.
Um ciclo de 17 anos
Alguns caminhos profissionais são planejados. Outros começam quase por acaso e acabam ocupando uma parte importante da vida. Com Juliana, foi assim com o Pilates.
Ela chegou ao estúdio, para dar aulas de Jump. Quando a então proprietária engravidou e precisou deixar Extrema, Juliana assumiu o espaço como funcionária. Já havia feito um curso de Pilates por curiosidade, sem imaginar que aquela formação ganharia tamanha importância em sua trajetória. Fez estágio na modalidade e passou a ministrar as aulas.
Até que veio uma proposta inesperada. A proprietária decidiu que não retornaria à cidade e precisava vender o negócio. “Eu não tinha condições de comprar. Mas ela negociou um valor comigo e disse: ‘Quero que seja seu. Os alunos gostam de você’.”
Aceitar significava também descobrir uma maneira de pagar pelo estúdio. Para complementar a renda, Juliana passou a dar aulas de dança na IMETI, na Vila Rica, onde permaneceu por dois anos. Nos finais de semana, fazia cursos de massagem. Mais tarde, deixou a escola e passou a trabalhar também como massoterapeuta. Aos poucos, conseguiu quitar o negócio que havia chegado às suas mãos como uma oportunidade.
O que não estava nos planos se transformou em 17 anos dedicados ao Pilates. Nesse período, o conhecimento adquirido foi além das aulas: Juliana acompanhou a recuperação de inúmeros alunos lesionados e construiu uma experiência que ainda hoje leva para seus atendimentos.
Mas chegou o momento de fazer outra escolha. No final de 2025, encerrou as atividades do estúdio, com 50 alunos ativos para se dedicar ao trabalho como personal trainer — um desejo antigo que, durante muito tempo, ela adiou por considerar que ainda não estava preparada.
“Ser personal é diferente de ser instrutor. Eu levo isso muito a sério, porque trabalhamos com saúde, com sonhos e com mudanças que não são apenas físicas. São mudanças de hábitos e de rotina.”
Fechar as portas depois de 17 anos não significou deixar aquela história para trás. O Pilates continua presente na profissional que Juliana se tornou. O conhecimento acumulado ao longo desse período hoje se soma à musculação e à experiência como personal, especialmente no trabalho com alunos que precisam lidar com limitações ou se recuperar de lesões.
Conquistar espaço também foi um treino
Construir seu nome no universo da atividade física também exigiu que enfrentasse barreiras. Quando começou, encontrou um ambiente predominantemente masculino. Na própria faculdade, lembra que havia poucas mulheres em sua turma.
O preconceito foi um dos primeiros obstáculos, mas não o único. Era preciso mostrar resultados e, principalmente, aprender a compreender o que cada pessoa buscava.
“Meu maior público sempre foi feminino e eu procurei entender cada mulher, porque mudar o físico é ótimo, mas mudar uma vida e os hábitos de alguém é muito maior. Receber uma mensagem dizendo ‘você tirou minha dor’, ‘você mudou minha vida’, ‘hoje eu tenho vida’… isso não tem preço.”
Com o tempo, aquela preocupação em enxergar cada aluno para além do treino ajudaria Juliana a construir uma nova etapa profissional.
Experiências que se transformaram em negócio
Em 2021, Juliana e o marido Marlon Robert Galu decidiram reunir o conhecimento e as experiências acumuladas no universo fitness e do bodybuilding para criar a New Body Assessoria.
A proposta nasceu com o objetivo de oferecer um acompanhamento próximo e individualizado a atletas e não atletas em busca de saúde, desempenho e resultados consistentes.
O trabalho ultrapassou as fronteiras do Brasil sem que isso tivesse sido necessariamente planejado. Alunos que se mudaram para outros países começaram a indicar a assessoria e o conhecido boca a boca abriu novos caminhos. A distância, porém, trouxe outros desafios, especialmente as diferenças culturais relacionadas à alimentação e até aos equipamentos disponíveis nas academias.
Enquanto ajudava outras pessoas a perseguirem seus objetivos, Juliana começava a se inquietar com um desafio que ainda não havia enfrentado pessoalmente.

Era hora de sentir na pele
O fisiculturismo já despertava a admiração de Juliana havia algum tempo. Competir, porém, parecia distante. Ela duvidava principalmente da própria capacidade de enfrentar a disciplina exigida pela dieta e pela preparação.
A percepção começou a mudar quando o marido decidiu competir. Juliana acompanhou de perto cada etapa e passou a observar as transformações do corpo, a rotina e as exigências que antecediam a subida ao palco.
“Eu comecei a me perguntar: por que não? Quando terminei a pós em Coaching e Bodybuilding, pensei: ‘Como vou aplicar e trabalhar com algo que nunca senti na pele?’. Foi quando resolvi me preparar.”
E sentir na pele significaria descobrir um esporte bem mais exigente do que aquilo que se vê sob as luzes do palco.
Treinos intensos, dieta rigorosa, ajustes na alimentação, aulas de pose, preparação da pele e drenagens passaram a fazer parte da rotina. Na fase mais intensa, praticamente não há espaço para erros. Mas, para Juliana, a maior batalha acontece longe dos olhos do público.
“É um esporte que leva você ao limite. É você contra você o tempo todo.”
Cansaço, fome, irritação e vontade de desistir convivem com a necessidade de manter a rotina profissional e pessoal. Há ainda as críticas de quem não compreende a modalidade e os efeitos que uma preparação tão rigorosa provoca no corpo.
A vida social também muda. Festas e encontros familiares podem significar estar diante de uma mesa sem poder sair da dieta. Em determinados momentos, a solução é recusar convites. “É uma fase meio solitária.”
Mas vieram também os resultados. Competindo na categoria Wellness, Juliana conquistou colocações de destaque: Top 2 no Musa Califórnia Fisiculturismo e Fitness, em Ribeirão Preto; três Top 2 nas categorias Estreantes, até 1,58 m e Master, em São José dos Campos; e dois primeiros lugares nas categorias até 1,64 m e Master, em Guarulhos, pela WBPF Brasil.




Foi justamente em Guarulhos que viveu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória como atleta. “Eu estava com muito medo porque era um campeonato com atletas fortíssimas. Quando fui campeã, passou um filme na minha cabeça. Naquele momento, todo o sacrifício valeu a pena.”
Quando o resultado não cabe em um troféu
As medalhas fazem parte da trajetória de Juliana, mas, quando ela fala sobre suas maiores conquistas, são outras histórias que aparecem primeiro.
Uma delas é recente. Uma aluna enfrentava um período difícil na vida pessoal e estava com sobrepeso. Juliana pediu apenas que ela confiasse no processo e em seu trabalho. Em seis meses, segundo relata, a aluna eliminou 30 quilos por meio de mudanças na alimentação e dos treinos, sem medicamentos.
“Ela me mandou uma mensagem chorando e disse que eu tinha salvado a vida dela, que hoje ela tinha vida.”
Há também aqueles que dizem ter aprendido a gostar de atividade física por sua influência e os que relatam não sentir mais as dores que carregavam antes. Para Juliana, são resultados que não aparecem em pódios, mas ajudam a explicar por que escolheu essa profissão.
Talvez tenham ainda mais significado porque a profissional que hoje orienta e motiva outras pessoas precisou vencer suas próprias inseguranças. No início da carreira, a timidez, o medo de falar em público e os complexos com o próprio físico estavam entre seus maiores obstáculos.
Com o tempo, vieram experiência, alunos, competições e conquistas. Mas, quando precisa escolher aquilo que melhor representa tudo o que construiu, Juliana não aponta para uma medalha.
“A maior conquista é quando alguém me indica ou elogia meu trabalho. Esse reconhecimento, para mim, é uma grande conquista.”
A mulher por trás da atleta
Por trás da profissional, da empreendedora e da atleta que aprendeu a levar o corpo aos próprios limites, Juliana se define de maneira mais simples: uma mulher determinada, verdadeira e muito ligada à família.
“Não sou muito carinhosa, minha forma de demonstrar carinho é com atitudes. Sou verdadeira, como dizem, até demais”, brinca. Ela diz prezar pela sinceridade, mesmo quando ela pode doer, e valorizar a simplicidade e, sobretudo, as pessoas que tratam o outro com respeito, independentemente da condição social.
É ao lado da família e dos amigos que procura se afastar um pouco da rotina intensa de trabalho e treinos. Gosta de passear, sair e aproveitar os momentos livres. Mas, principalmente durante a preparação para uma competição, encontrar esse equilíbrio nem sempre é fácil.

Da esquerda para a direta: Pai José Abrante e a mãe Ângela Maria – Juliana com Zouk– filho de 4 Patas – seu irmão Joab Márcio Abrante com o filho Bob e sua cunhada Alexandra Ferreira Abrante, e seu esposo Marlon Robert Glau
“É bem complicado. Durmo pouco para dar conta de todas as tarefas, principalmente quando estou em preparação. Quando não estou, me permito mais: como besteiras, durmo mais, saio e tento aproveitar.”
Se o fisiculturismo exige muito da atleta, também lhe devolveu algumas descobertas. Mais do que transformar seu corpo, o esporte mudou a percepção que ela tinha sobre a própria força e ensinou que disciplina não termina quando o treino acaba.
“O esporte me mostrou que posso chegar muito mais longe do que imaginava e que sou mais forte do que pensava. Aprendi que a disciplina é necessária em tudo na vida, não apenas no esporte. Também passei a conhecer melhor meu corpo e meus limites. Hoje sei reconhecer a hora de parar e cuidar da minha saúde física e mental.”
E quando olha para o futuro, seus planos profissionais dividem espaço com uma motivação muito pessoal. Juliana quer continuar crescendo na carreira, mas deseja, sobretudo, proporcionar mais conforto à família, que define como seu alicerce.
Há ainda um novo projeto começando a ganhar forma. Ela não revela detalhes, apenas antecipa que um empreendimento está em construção.
Para além do corpo
Foi em Extrema que Juliana encontrou oportunidades, estudou, construiu sua carreira e transformou o esporte em profissão. E é também na cidade que pretende ampliar o alcance de um trabalho que, para ela, já não se resume à busca por resultados estéticos.
Ela acredita que o mercado de atividade física e bem-estar ainda tem muito espaço para crescer, principalmente à medida que mais pessoas passam a enxergar o exercício como parte de uma vida com mais saúde, autonomia e qualidade. Um movimento que, em sua visão, precisa alcançar diferentes idades e tornar a atividade física cada vez mais acessível.
É com esse propósito que conduz o trabalho na New Body: ajudar cada aluno a alcançar resultados respeitando sua individualidade, mas também construir uma relação mais saudável e duradoura com o exercício.
Talvez esteja justamente aí o significado de tudo o que Juliana construiu até agora. Durante anos, ela aprendeu a desafiar o próprio corpo, a reconhecer seus limites e, algumas vezes, a descobrir que conseguia ultrapassá-los. Hoje, usa essa experiência para mostrar a outras pessoas que transformação não acontece apenas diante do espelho.
Porque, para Juliana Abrante, ir além dos próprios limites nunca foi apenas sobre mudar o corpo. Foi sobre descobrir do que somos capazes, e viver melhor a partir dessa descoberta.
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