Casa

Saiba por que a verdadeira casa vai muito além das paredes. Leia a nova reflexão da Profa. Lourdinha.

29 de julho de 2026 - 7 dias atrás

Em alguns dias parece que a gente só quer cismar mesmo. Aquela coisa de sentir-se totalmente desencaixada. Tocada por algumas coisas que o senso comum parece se satisfazer em dizer e dizendo torna-se tão natural. Por exemplo: “fulana, eu não dava nada por você”, vou logo pensando: e quem é que disse que fulana estava à venda.

A sensação que me invade é que falas violentas vão sendo banalizadas, transformadas em: “é só um jeito de falar”. Será? As palavras são tão importantes, penso por exemplo no que está escrito no evangelho de João, nos primeiros capítulos: O verbo se fez carne e habitou entre nós. Podemos interpretar que somos a casa viva desse verbo. Dessa palavra de amor.

Ouvindo a resposta de Gil ante ao pedido que uma fã fez: “não pare de fazer shows” ao que ele respondeu que as coisas começam e terminam. Que lindo! Dizer isso com uma naturalidade que cabe tão bem no ser Gil. Marca maravilhosa em nossas vidas. Deixar-me tocar pela arte em Gil é uma dádiva. É permitir que minha existência se torne mais plena, mais doce, recheada com palavras, melodia, arte, ritmos.

O que é que encontramos nos nossos inícios e nos nossos términos? Na chegada ao mundo para habitar a casa corpo que ocupamos. Ai de nós se não tivéssemos sido acolhidos ao nascer, dentro das nossas fragilidades. Penso em como, não raras vezes, as crianças são tratadas, percebo atitudes, infelizmente, totalmente desrespeitosas com quem está crescendo.

Deveríamos ter um treinamento para sermos capazes de cuidar, que as crianças fossem responsabilidade de toda a sociedade. Hoje ouvi choro sentido, cheio de lamento vindo de uma criança. Fiquei triste, anoiteceu meu coração. E havia um adulto gritando descompensadamente, como se fosse natural agredir quem é mais frágil do que a gente.

As coisas começam e terminam, em algumas pessoas de certas classes, a sociedade imputa a ideia de que a vida é uma constante luta, que as pessoas têm que ser guerreiras, superarem individualmente certas dificuldades que são impostas para um grupo historicamente excluído, minoritário, não em número, mas em poder.

Não é sobre talento e não há como superar individualmente. Por exemplo, para algumas pessoas o trabalho, além do corpo também é uma casa, obrigatoriamente passando mais tempo no labor. Quando estão às portas da aposentadoria são quase chutadas porta afora. Como se não tivessem mais valor. Nenhuma reverência ao tempo em que construíram com o corpo, as horas em que nos construíram.

Dentro dessa nostálgica utopia ouso pensar em uma sociedade que se supera. Grande no respeito à justiça, à honra, do início ao fim em nossas casas/corpos. A estatística do aumento do tempo de vida é bradada todos os dias, a primeira coisa que fizeram como poder público foi aumentar o tempo de trabalho e a restrição dos benefícios/direitos, porque creio que não seja benefício, quando um direito é chamado de benefício, parece favor. Que horror! A sociedade é que é favorecida quando se torna mais justa. Quando cuida bem de todos. Se foi aumentado o tempo de vida, por que não usar para bem viver. Com a lógica do cuidado, da amorosidade.

Viver melhor pode ser trabalhado todos os dias. Participar do que há de melhor dentro da nossa sociedade. Cuidado desde a nossa chegada à essa casa corpo mundo. Não foi superada aquela velha vontade de colonizar, explorar, excluir, deixar de fora do que é melhor. Não foram superados os nossos velhos dilemas. Ainda falamos em humanizar, isso me remete a duas cenas e as trago a título de conforto. Uma aconteceu em uma sala de vacinação, quando um bebê, desses que está começando a ficar sentado no colo, ainda não muito firme, ele fez contato visual comigo e se acabou em risadas deliciosas que só bebês conseguem, aquelas que fazem com que se encolham, rindo com a mais pura alegria. Passou por um bom tempo naquela cena linda…

E a outra foi durante o carnaval na praça. Um professor de educação física que trabalha no serviço público. Pediu para empurrar uma cadeirante que estava assistindo à uma marchinha proporcionada pelo grupo de seresta Renascer. A cadeirante que só assistia passou a participar da dança ao ter sua cadeira empurrada pelo professor. A cadeirante, uma senhora, cujo nome não perguntei, participou da dança e havia naquele rosto uma felicidade deliciosa de se ver.

Do início ao fim nessa nossa casa, o tempo poderia ser ocupado proporcionando alegria.

Profa. Lourdinha

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