
Prof.ª Lourdinha
Professora de Língua Portuguesa e vice-diretora da EE Odete Valadares.

Professora de Língua Portuguesa e vice-diretora da EE Odete Valadares.
Uma história tocante sobre memória, afeto e despedida que revela a delicadeza das relações humanas.
04 de maio de 2026 - 5 dias atrás

Não sei em qual momento do dia recebi aquela notícia. Sei que simplesmente parei, impossível descrever tudo o que senti, mas esbocei um: oh! O que transpareceu na minha expressão não sei dizer, tão emaranhada eu estava naquela nuvem cinza que me abraçou. Alguém falou, não em forma de conselho ou acolhedora. Sei que foi algo mais ou menos como: é assim mesmo, e foi dizendo algo sobre tempo de vida. Não ouvi mais, porque tal expressão não cabia nas emoções que me envolviam.
Conheci dona Margarida, não sei precisar quando. O encontro foi com uma apresentação e um sorriso dela, e em seguida um beijo verdadeiro na maçã do meu rosto, extremamente terno. Conversamos um pouco. A expressão dela acolhedora, sorridente. Presença linda! Muito inteligente na forma como ouvia e fazia perguntas pertinentes acerca do assunto tratado ou dos nossos posicionamentos na forma como a história era contada. Muito inteligentes as perguntas. Constrangedoras, mas não de modo agressivo. Ainda assim, talvez sua doçura, sua inteligência, sua perspicácia irritassem algumas pessoas.
Enfim, certa feita, dona Margarida mudou de endereço, talvez não tenha sido de maneira tranquila, com decisão própria. Quase um despejo, quase arrancada do seu espaço, de suas memórias para ocupar outro lugar. O lugar anterior onde vivia, com certeza, era alimentado com as histórias, o bem-estar, as memórias, a autonomia. Não pôde mais decidir onde viver. Normalmente o pensamento de outros. É melhor assim. Uma forma de cuidar, de ficar de olho. Vez por outra isso acontece, não quando a própria pessoa pede ajuda. Acontece quando a decisão é tomada aquém da participação da pessoa envolvida. Uma ordem: faça a mudança para onde determinamos.
Dona Margarida veio, mudou. Linda que era, suas pétalas foram caindo, até precisar de cuidados intensivos. E novamente uma mudança de endereço. Ouviam-se frases tais como: é assim mesmo, muito melhor. E no novo lar, pouca interação, sono profundo e não sei mais o que ocorre quando a pessoa se afasta das próprias lembranças embora, estas continuem lá. Em algum lugar.
Ah! Dona Margarida. Aquele abraço gostoso, para mim, um abraço quase que materno. Esses encontros com Dona Margarida remetem-me aos aprendizados que a gente tem nesses encontros que a vida reserva como presentes. Quando a gente se encontra com a experiência encarnada em um ser que sabe um sorriso doce, embora tenha passado por muitos caminhos e muitas estradas. Contou-me pouco sobre filhos, pude perceber que recursos financeiros não eram o grande problema. Reagindo àquela notícia, desabei-me em lágrimas só pela madrugada, quando o desconforto no peito encontrou passagem nos olhos.
Parece que não temos a permissão para sentir o que sentimos, tudo tem que ser mostrado tão rapidamente. As emoções mais profundas têm que sair logo. Vivenciar logo, mostrar e apagar. Não consigo processar sentimentos dessa forma. Acho que aí está algo que só a miséria de sermos humanos nos permite. Sentimentos! Com certa urgência apoio-me na grandeza de Guimarães Rosa “As pessoas não morrem, tornam-se encantadas.”
Margarida, você encantou-me desde que a conheci, naqueles breves momentos com os quais a vida nos presenteia. São tão intensos que marcam um tempo querido em nossas memórias e mudam nossa forma de viver. Vi sua foto, no aviso sobre sua passagem. Contudo não vi na foto, tudo o que um dia vi no seu rosto, naquela foto não havia a sua grandeza, parecia uma outra pessoa. Despeço-me não com a minha presença em sua última homenagem, mas em forma de texto e de lágrimas e que elas reguem esse seu novo endereço com todo o meu amor e graças pela sua vida.
Profa. Lourdinha
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