Prof.ª Lourdinha

Prof.ª Lourdinha

Professora de Língua Portuguesa e vice-diretora da EE Odete Valadares.

O segredo de Dona Sofia e o valor que muitos deixaram de enxergar

A história de Dona Sofia revela memórias, silêncio e um segredo guardado por décadas. Uma narrativa sensível sobre reconhecimento, memória e o perigo de enxergar valor apenas no que é material.

13 de abril de 2026 - 2 semanas atrás

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Dona Sofia

O lugar onde ela residia dizia muito sobre ela. O número da residência era 549, um lugar no alto, poderíamos adjetivar como privilegiado, poderia gabar-se, mas isso não trazia egoísmo em sua forma de existir, achava o espaço muito pequeno para guardar as suas memórias. Isso! Algumas ocupações, apenas sobrepõem. Embaixo daquela casa havia tantas histórias que tentaram apagar. Meio que assombrações, sabe. E não faltam aqueles que creem fielmente em assombrações e sabem reproduzir a forma como se deram seus contatos. Acredito que seja porque assombrações não gostem de aparecer para todas as pessoas. São bem criteriosas.

Dona Sofia já estava naquela fase que era considerada sub 90. Melhor não precisar a idade para que comentários desnecessários não floresçam. Dona Sofia guardava muitos segredos naquela casa, mas um deles era imenso. O que as pessoas viam era apenas o número de quartos, a deterioração do piso, as paredes, a fachada. Muitas vezes funcionava como uma pensão, pessoas ficavam por um determinado tempo e depois partiam, alguns retornavam, mas mesmo assim, a maioria não entendia, não percebia o segredo. Talvez fosse melhor, porque quem passava perto de descobrir era firmemente perseguido, desvalorizado, apagado em vida, isso, se tentasse revelar, compartilhar. Era um momento muito difícil, talvez comparado à solidão de quem faz a coisa certa e é punido ou rejeitado por isso. Sufocante.

Com o tempo e algumas propagandas, algumas cidades se valorizam e o espaço ocupado por Dona Sofia passou a ser cobiçado. Muito cobiçado, queriam desapropriar, como se ela não merecesse residir ali no 549. Inventaram doenças para ela e de repente alguém saudável passou a ser descrita apenas como um risco. Pouco valor. Todos os benefícios que a existência dela trouxe para a cidade não eram mais reverenciados, todos os prêmios que pessoas da cidade alcançaram por meio da ajuda dessa senhora não foram mais vistos. E o único valor atribuído ao 549, era o espaço.

Naquela tarde Dona Sofia, após ler, abro um parêntese para informar que sim, ela lia em partes da manhã, da tarde e antes de dormir, então, naquela tarde ela leu algo que a fez lembrar da citação mais ou menos assim “fácil para um anão, se sentir grande sobre os ombros de um gigante”. Subiu as escadas, olhou para além do horizonte soprou seu segredo em forma de sementes.

Por isso que ainda hoje, após 82 anos, todos que passam por aquele endereço, disponibilizam tempo e esforço atentos compreendem e compartilham o segredo de Dona Sofia.

Profa. Lourdinha

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