Algumas histórias são construídas passo a passo, com paciência, sensibilidade e propósito. A trajetória de Agnes Gonçalves Nunes é assim, marcada pelo cuidado com as pessoas e pelo compromisso com uma educação que acolhe, inclui e transforma vidas.

Aos 45 anos, Agnes é pedagoga e está à frente da gestão do Centro de Integração Especial (Crie), em Extrema, onde atua há quase duas décadas. Sua história com a instituição começou em 2006 e, desde então, tornou-se parte fundamental de um trabalho voltado à garantia de direitos e oportunidades para pessoas com deficiência.

Nascida em São Paulo e criada em Bragança Paulista, Agnes é a segunda de três irmãs. Guarda lembranças de uma infância tranquila, com liberdade para brincar nas ruas do interior e viver a simplicidade dos dias de criança. Na escola, porém, a relação era diferente: tímida, não se sentia muito conectada ao ambiente escolar.

Família é onde existe amor, onde existe colo, onde o julgamento dá lugar ao acolhimento

– Sou a pedagoga que não gostava de escola, e talvez por isso trabalhar pela inclusão faça tanto sentido pra mim.

Aos 19 anos, decidiu seguir um novo caminho e mudou-se para Marília, no interior paulista, para cursar Pedagogia na Universidade Estadual Paulista (Unesp). No início, imaginava se especializar na área da surdez, mas foi durante a participação em atividades no Centro de Estudos de Educação e Saúde (Cees) que sua trajetória tomou outra direção.

Ao integrar um projeto voltado para adolescentes e jovens adultos com deficiência intelectual, percebeu um vazio importante na educação, a ausência dessas pessoas nos espaços de aprendizagem e convivência.

– Não tem como a gente se preparar para quem não está. Era urgente que essas pessoas tivessem voz e ocupassem todos os lugares que desejassem.

Foi ali que nasceu, de forma definitiva, o compromisso com a educação inclusiva. Durante esse mesmo período da faculdade, Agnes viveu uma das experiências mais intensas de sua vida, a maternidade. Tornou-se mãe da Sofia, hoje com 22 anos.

Conciliar estudos, trabalho e a criação da filha trouxe desafios, mas também ampliou sua sensibilidade para compreender a complexidade e, muitas vezes, a solidão que pode acompanhar a maternidade.

Recém-formada, retornou a Bragança Paulista até surgir uma oportunidade em Extrema. Aos 26 anos, assumiu a coordenação pedagógica do Crie, instituição que hoje tem 34 anos de história e realiza cerca de 220 atendimentos mensais.

Desde então, Agnes ajudou a construir uma trajetória marcada por avanços importantes. Entre as conquistas estão a implantação do Atendimento Educacional Especializado (AEE), em 2008, a estruturação do Serviço de Convivência, a conquista da sede própria e, mais recentemente, a garantia de recursos para a implantação do Centro Dia.

É urgente que as pessoas com deficiência tenham voz e ocupem todos os lugares que desejarem

Em março de 2026, Agnes completa 20 anos de dedicação ao CRIE, acompanhando de perto a evolução da instituição e o impacto do trabalho na vida de tantas famílias.

Ao longo dessa caminhada, também carrega referências importantes. Entre elas, Milton Cláudio Pereira, o Miltinho (in memoriam), e Magda, que lhe confiou o “bastão” da gestão e deixou marcas em sua trajetória profissional.

Hoje, entre sonhos e projetos, Agnes deseja ver a filha prosperar e seguir seu próprio caminho. E, ao mesmo tempo, continua trabalhando para que o Crie seja cada vez mais reconhecido como um espaço essencial de desenvolvimento, convivência, qualidade de vida e garantia de direitos.

Para ela, os significados da vida são simples e profundos. Família é lugar de amor e acolhimento. E Extrema se tornou mais que um endereço no mapa. É o lugar onde construiu carreira, formou amizades, viu a filha crescer e escreveu uma história dedicada à inclusão e à educação com propósito.

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