Prof.ª Lourdinha

Prof.ª Lourdinha

Professora de Língua Portuguesa e vice-diretora da EE Odete Valadares.

Comida

Muito além do prato: um convite à reflexão sobre a fome, o direito à alimentação e a memória afetiva da comida.

13 de julho de 2026 - 2 semanas atrás

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Já pensei muito sobre isso. Esse pensar muito me incomoda. Não consigo entender como é que em um mundo onde existe tanta fartura, ainda temos que pensar a fome. Mergulho nas palavras de Mia Couto, o moçambicano “já esqueceu falar, outra vez? É da fome isso. Sabe o que você faz? Você engole com força. É, engole saliva, faz conta até entrar comida na garganta. A fome fica confusa, assim.” Trago em mim as lembranças da campanha do Betinho, o irmão do Henfil “Quem tem fome tem pressa.” Ainda vivemos esse drama. Infelizmente.

Viajo por todas as políticas públicas em relação à comida. Campanha para amamentação dos pequenos, sim, é necessário fazer campanha sob o custo de as mães não terem tempo para se ocuparem desse momento sagrado, a visão sobre o ato de amamentar é interpretado como muito fácil e corriqueiro, ou até mesmo que deva ser ocultado porque constrange algumas pessoas puritanas. Há que se voltar rápido aos afazeres do dia a dia. Há também a campanha do cuidado com as grávidas, a importância do pré-natal, a nutrição e o cuidado começam com as mães.

Então penso na alimentação escolar, como é que a comida chega às escolas. Atualmente todo um trabalho para que os alimentos venham da agricultura familiar, menos açúcar, mais polpa, menos processados. Isso não é um problema, é uma conquista muito grande, parte de um olhar, de uma luta. Se não cuidarmos da alimentação das crianças, dos adolescentes na escola, contribuiremos para que adoeçam depois. É um espaço de aprendizado. Isso me faz sonhar que poderíamos ocupar mais tempo dentro da escola para essa hora sagrada. O alimento é sagrado. Deve haver fartura.

Alimentar alguém não é favor. Quaisquer palavras torpes que transformem esse momento em humilhação deveriam ser banidas. Sentar-se e se alimentar, com alimentos bem preparados, saudáveis em um ato de compreensão e de carinho. Quanto tempo é dispensado à alimentação dentro das escolas. Será que dá tempo? Não é um favor, é um direito, sagrado. Sei que parece óbvio, mas o óbvio às vezes nos foge.

A memória afetiva em relação à comida é construída aos poucos, fixa no coração da gente. Lembro-me de ao voltar em uma cidade bem pequena, casas com quintais imensos sempre sentia o mesmo cheiro, a partir das 17h. Cheiro de comida sendo refogada, simples, cheirosa, gostosa. Alimentava todos. A alegria compartilhada no ato de fazer pamonha, aqueles doces de frutas, os mais gostosos que já comi na minha vida. É que vinham carregados de histórias, de trabalho em conjunto. Sinto falta, muita falta.

Quando me remeto à essa falta, não é falta de algo apenas para mim. É de algo compartilhado, um modo de viver. É muito dolorido perceber que ainda convivemos com o desprezo pelo alimento, pelo ato de alimentar-se. Muito desse vazio é preenchido com outras coisas que entorpecem, talvez para embotar a percepção acerca do que se pensa não poder ser mudado. Pode e deve. Ainda podemos perceber.

Peço ajuda ao Betinho em sua frase “Eu não acho que ninguém tem que se endurecer, eu acho que as pessoas podem ser capazes de resistir com toda suavidade”. Pois bem, continuando nesse caminho trabalhando com algumas gerações peço muito que eu tenha suavidade, possa ser suave e firme. Reconhecer injustiças, exageros e plantar sementes que de uma forma ou de outra vingarão. Afinal “O que somos é um presente que a vida nos dá. O que nós seremos é um presente que daremos à vida.”  Podemos com certeza viver a suavidade e a força de querer humanizar as relações.

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