Dona Soledade

Uma conversa simples à beira do fogão a lenha revela uma reflexão profunda sobre empatia, dignidade e o verdadeiro significado da solidariedade.

17 de junho de 2026 - 3 dias atrás

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Um nome que poderia parecer estranho para uma pessoa. As crianças não se incomodavam, tentavam fazer aquele nome caber dentro da própria língua, dentro das palavras novas que eram acolhidas sem incômodo. O nome de Dona Soledade chegava com cheiro de fogão a lenha, longas histórias, cuidado e reflexões. Reflexões com crianças? Dona Soledade achava bem mais fáceis de fazer, as crianças traziam histórias muito interessantes. Sábias reflexões.

Naquele dia apareceram várias crianças ao redor do fogão à lenha de Dona Soledade. À tardezinha, quase ao cair da noite, momento em que fica mais fácil contar certas histórias. Histórias que eram contadas até que as corujas piassem, aqueles pios compridos, que faziam pensar.

Vamos ao ocorrido.

Dona Soledade naquela tarde, de forma inusitada resolveu ler a bíblia, ou pelo menos um trecho dela, foi o que explicou para audiência, antes de passar ao trecho escolhido “Olhai os lírios do campo que não fiam nem trabalham, mas nem Salomão, jamais em toda a sua glória se vestiu como um deles…” E toca-lhe a explicar quem foi Salomão, o que eram lírios? Houve alguém que quis saber o que eram campos. Na verdade, o que fez Dona Soledade citar a bíblia, foi um diálogo entre dois personagens dentro de um romance Olhai os lírios do campo, romance lindo de Érico Veríssimo. O diálogo entre Olívia e Eugênio a fez pensar muito.

Com muita tranquilidade e firmeza, dona Soledade respondeu aos questionamentos e ofereceu o contexto, o cotexto, (há manual sobre cotexto em algum lugar por aí) o texto e todas as explicações concernentes ao evento, fato que seria narrado. Assim, começou ela, havia uma moça, senhora, sei lá, muito caridosa, seja lá o que isso signifique. Então, para o bem e para o olhar de todos os virtuosos, era uma pessoa caridosa. O espalhafato e a exposição reforçavam isso, o espalhafato e a exposição às vezes parecem necessários para aquela gente bem adjetivada no prólogo de um dos romances de Machado, como frívola. Dona Soledade aprendeu com Machado que essa gente cruza mais o caminho da gente do que a gente gostaria.

A tal moça caridosa havia comprado um presente e o entregara. Eis que surge a explicação sobre quem recebeu o presente. Eu, apontando para o próprio peito, disse a caridosa, eu a acolhi, ela não tinha nada, a primeira vez que teve uma caixa de madeira foi dentro da minha casa, ela nem conhecia uma caixa feita de madeiras. Ela era muito pobre, pobre demais, morava debaixo da lona, coitadinha. Ela chorou vendo aquela caixa. Seguiu-se a essa fala toda a descrição de quem era a moça, onde vivia, dificuldades tantas pelas quais havia passado e o tamanho da … Caridade, a história era contada com tantas minúcias que a própria virtuosa chorou.

Em seguida, frases desconexas entre choros e risos sobre o quanto a moça deveria sentir-se grata, muito grata, afinal, agora tinha um teto, uma segunda mãe, uma vida digna, dinheiro, mesmo que pouco, trabalho. Uma enxurrada de frases sobre como a dificuldade do outro pode ser escancarada de uma vez só. E o quanto o salvamento é necessário, urgente e faz grande quem o oferta. A vulnerabilidade de uns, servindo de escada para outros.

Dona Soledade lembrou-se e contou sobre uma carta escrita há 34 anos na qual foi criada uma instituição para todos, para todos, sem distinção. Saúde!  Sistema Único de Saúde! Anos depois tentaram destruir, Apagar! Falar mal! Acabar com o funcionamento! Privatizar. Ainda assim, o sistema insiste. A carta não foi lida inteiramente à beira do fogão a lenha, mas foi marcada a sua importância. Houve perguntas, muitas perguntas. E as crianças   naquele dia aprenderam a diferença entre algo solidário e caridade. Pois sim! Caridade existe, mas… “solidariedade” parece muito maior. Cabem todos, é sem rosto. Não expõe. Nesse momento, em que a história era finalizada, alguém bateu na porta e chamou: – Soledade!

Profa. Lourdinha

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