2200 Caracteres com
Monique Evelin: quando o corpo encontra sua voz
Monique Evelin
17 de setembro de 2026
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17 de setembro de 2026
A dança faz parte de seu imaginário desde criança: “nas festas de família sempre tinha alguém puxando um passinho”, lembra Monique Evelin Marinho, 31 anos, publicitária e dançarina. A artista natural da cidade de Ferraz de Vasconcelos (SP), se mudou para Extrema, aos 12 anos de idade, junto com sua família: a mãe Raquel Marinho, os irmãos Marcus e Maicon, e Claudiomir da Silva, seu padrasto.
Comunicativa, cuidadora e sonhadora, Monique teve uma infância raiz, rodeada de amigos. Conta que foi muito mimada pela avó e pelas tias, e dançar era uma das brincadeiras favoritas de sua infância.
“A dança fazia parte da nossa família, das festas. Eu e minha prima Maiara ensaiávamos as músicas que iam tocar e nos apresentávamos — era um verdadeiro evento. Marcávamos para assistir ao programa da Cátia na TV Band e aprender coreografias. É o Tcham? Sabíamos todas!” E recorda que as datas festivas, como Natal e aniversários, viravam palco para elas.
Com veia artística, Monique não perdia uma oportunidade. “Certa vez, faltei à aula e anunciaram um evento de Miss – minhas amigas não tiveram dúvida, me inscreveram, pois sabiam que eu amava e que ia querer estar ali. Eu participava de literalmente tudo que tinha.”
Seu fascínio pelo movimento corporal contagiava toda a família, que brincava que a levariam para participar do programa Raul Gil, pois bastava ouvir uma música para ela sair dançando. Além desta paixão, também tinha o hábito de escrever e desabafar em diários – prática que a acompanha até os dias atuais.
Ainda criança, Monique fez aulas de ballet e praticou capoeira. A mudança para Extrema trouxe-lhe novas possibilidades em diferentes espaços da cidade. “Fui aluna doProviArte, da D. Maurícia, uma das primeiras experiências que me aproximaram da dança. Ensaiávamos no Poliesportivo e na Casa da Cultura. Todas as audições que tinha de grupos da cidade, eu participava.”
Foram muitas as Mostras de Dança em Extrema, inclusive participou da primeira edição, em que a jovem Monique marcou presença. Dançou nas domingueiras na praça, em escolas. “Participei de um espetáculo pelo Studio da Camila Alcovér, dancei em projetos de outras cidades e hoje também trabalho com bandas e artistas.”
Em suas muitas vivências, tem uma história muito especial para ela. “Fui assistir a uma apresentação do meu irmão, o Marcus, que também é artista. Antes de entrar no palco, cada participante dizia sua inspiração. Na sua vez, ele disse que sua inspiração era eu, que começou a dançar me observando. Fiquei surpresa! Ele sempre me acompanhou nos projetos da cidade, mas eu não imaginava que me enxergasse assim. Percebi que eu já podia ser referência para alguém, sem sequer saber.”


Construindo seu presente
A facilidade para interagir e se conectar com diferentes grupos, desde criança, despertou-lhe o interesse pela faculdade de Rádio e TV. “Este foi meu primeiro sonho ligado à comunicação, porém, na época, o curso era em São Paulo, e eu não tinha como me mudar. Fiz um teste vocacional e Publicidade e Propaganda apareceu como uma possibilidade. Decidi então me formar, entrar no mercado de trabalho e logo buscar uma especialização em rádio e TV.”
Mas, assim que se formou, a vida a levou por novos caminhos. “Ao longo da minha trajetória, percebi que a comunicação nunca saiu da minha vida. Ela apenas foi encontrando formas diferentes de aparecer.”
Antes de se tornar dançarina e professora, Monique vivenciou fortemente a área de atendimento ao público. Trabalhou em farmácia, no marketing do Tetra Supermercados, na Vivá Imobiliária, e teve uma longa trajetória na Azul Linhas Aéreas, atuando diretamente com atendimento ao cliente, em contato com as áreas de comunicação e produção de conteúdo.
“Quando olho para trás, percebo que cada experiência desenvolveu uma parte que hoje está presente no meu trabalho. O atendimento me ensinou a ouvir e entender pessoas. A publicidade me trouxe criatividade e comunicação; e a dança, expressão e a possibilidade de transformar tudo isso em experiência. Fui construindo um repertório que hoje se conecta.”
Quando a dança chamou de volta
Sua formação em dança não seguiu o padrão tradicional. Grande parte do que aprendeu nasceu da prática, da observação, dos amigos e da família. “Sempre tive facilidade visual e corporal para aprender. Eu observo um movimento e consigo trazê-lo para o meu corpo. Danço vários estilos e tento me adaptar a cada um. Mas, se tivesse que escolher um lugar onde me sinto mais em casa, seria na dança de salão, especialmente no zouk.”
Há três anos, dançar ganhou umsignificado maior para Monique. Foi a partir de um convite do amigo Tadeu para ser sua parceira em uma apresentação que a dança começou a ocupar um novo lugar em sua vida. “Através deste meu amigo, cheguei ao Studio da Camila Alcovér, um espaço pelo qual sou muito grata. Entrei como monitora para ajudar na dança de salão, voltei a ter contato com o ballet e o jazz e, em paralelo, comecei a me apresentar com ele em eventos da cidade, e em algumas apresentações era remunerada.”
Em um determinado momento, Monique quase desistiu da dança: deixou o Studio e diminuiu o ritmo das apresentações. Mas foi então que recebeu a oportunidade de realizar um sonho adolescente: dançar com a Banda Bixo Papão. “Cresci assistindo ao Carnaval de Extrema e admirando pessoas como Rafinha, Luly, Letícia, Alana e Pâmela. Pensava: “Meu Deus, um dia eu quero estar ali em cima, com eles.” Quando finalmente estive naquele palco, pensei: “É aqui que eu quero estar.”
Eu sinto e digo que estou seguindo o fluxo da vida, quando eu pensei em desistir da dança, portas se abriram pra mim. “Quando algo está predestinado pra nós, não adianta fugir: sempre encontra um caminho pra chegar até a gente.
Aprendizado para a vida
A dança lhe ensinou presença. Dançar aguçou em Monique as capacidades de observação, aprendizado e adaptação. Sempre teve muita facilidade de olhar e reproduzir um movimento, característica também presente na maneira como ela aprende outras coisas.
Muito além de expressão corporal, dançar lhe ensinou a olhar para o corpo com mais carinho, a reconhecer sua feminilidade, sensibilidade e também sua força. Também a ajudou a construir a autoestima. “Durante muito tempo, precisei esconder uma parte de mim que hoje é uma das mais importantes da minha identidade. Na adolescência, me apresentava escondida da minha mãe, que receava que alguns estilos pudessem me expor ou me vulgarizar. Quando ela descobriu, deixei de participar. Era sua maneira de me proteger.”
Monique percebeu que esse medo não partia apenas dos familiares, mas também era fruto do olhar da sociedade às mulheres. “Durante muito tempo, eu mesma carreguei esse julgamento dentro de mim. Quando comecei a dançar FitDance, por exemplo, tinha receio de postar alguns vídeos, porque temia ser mal interpretada.”
Com o tempo, a artista compreendeu que não precisaria diminuir sua própria expressão para ser respeitada. “Dançar não define o caráter de ninguém, nem determina o lugar que uma mulher merece ocupar. Quando voltei a ocupar os palcos, já adulta, precisei ressignificar isso. Hoje quero mostrar que uma mulher pode ser feminina, sensual, delicada, forte e livre para se expressar, sem que uma coisa anule a outra.”
Voltou a estudar ballet e jazz para aprimorar sua técnica, limpar os movimentos e se preparar melhor para ensinar.
Já precisei pegar coreografia no palco, já errei, já precisei improvisar. Já aconteceu de eu descer do palco e pessoas pedirem para tirar foto comigo. Fico chocada com isso, mas fico feliz; de alguma forma, o que eu quis expressar, que é o amor pelo que eu faço, conseguiu alcançar alguém.
Novos projetos
Como uma bela coreografia, capaz de despertar os mais diversos sentimentos, Monique vai compondo com leveza sua vida. Recentemente, formatou a identidade para propostas que chegam até ela naturalmente. “A Movely representa uma mudança importante na minha trajetória. Estou transformando algo que sempre fiz naturalmente, dançar e ajudar outras pessoas a viverem momentos especiais, em um projeto com identidade própria.”
Um dos primeiros trabalhos com a Movely foi a criação de uma valsa de casamento, com seu amigo Tadeu. “É muito especial perceber que algo que começou como uma paixão pela dança hoje pode fazer parte de momentos tão importantes na vida de outras pessoas.”
Outra oportunidade que Monique abraçou com alegria é o Aurora Women’s Club, projeto criado pela empreendedora e instrutora de yoga Nágila, onde Monique atua como professora de dança. “Essa história é muito especial para mim. Há alguns anos, escrevi um projeto pensando em criar um espaço de acolhimento e desenvolvimento para mulheres, com atividades como dança, clube do livro, cerâmica, pintura, costura e outras experiências. Na época, busquei orientação para viabilizá-lo por meio de lei de incentivo, mas não havia edital aberto e o projeto acabou arquivado. Dois anos depois, a Nágila, que já era minha instrutora de yoga, me apresentou o Aurora e me convidou para dar aulas de dança. Quando me contou a proposta, fiquei muito feliz, porque havia ali algo que eu já tinha sonhado e colocado no papel.”
Monique, que até então não se sentia pertencente à posição de professora, disse sim, ressaltando que o propósito dessa vez era maior. “Quando dei minha primeira aula no Aurora, foi incrível, parecia que eu já fazia aquilo há anos. Foi muito natural. Acho que naquele momento entendi que talvez eu não estivesse começando algo completamente novo; estava apenas dando espaço para uma parte de mim que já existia.”
O Aurora Women’s Club é um espaço para mulheres, pensado para que elas possam desacelerar após um dia intenso de trabalho, da casa, dos filhos e de outras responsabilidades. “Nas minhas aulas de dança, busco proporcionar o encontro delas com o próprio corpo. Quero que despertem feminilidade, sensualidade e liberdade de movimento, sem o medo constante do julgamento. A dinâmica da aula passa por esse cuidado: primeiro a dança, depois fechamos com uma roda de conversa, usamos um oráculo intuitivo como ferramenta de reflexão e autoconhecimento.”
Para Monique, seu trabalho é muito maior que ensinar uma coreografia: “Almejo que saiam da aula sentindo que ocuparam o próprio corpo de uma maneira diferente. Também quero ajudá-las a reencontrar aquela criança que um dia dançava sem pensar no julgamento.”
Liberdade para ser
Uma experiência com as alunas do Aurora marcou especialmente Monique. O Aurora havia publicado um vídeo em que as alunas dançavam uma coreografia de Anitta, com movimentos mais marcantes. Embora todas autorizassem previamente o uso de suas imagens na divulgação das aulas, uma das participantes se sentiu desconfortável com a exposição.
“Ela ocupava uma posição de liderança em uma empresa e contou que, no dia a dia, precisava assumir uma postura muito firme. Ao mostrar um lado que as pessoas não conheciam, teve receio de que isso pudesse diminuir sua potência como profissional.”
A situação foi levada para a roda de conversa realizada após a aula. O que poderia ter permanecido como um desconforto individual abriu espaço para uma reflexão coletiva. Outras mulheres começaram a compartilhar suas próprias experiências e falar sobre o desejo de se permitirem dançar, sentir-se bonitas e femininas sem receio do julgamento.
O vídeo provocou ainda outro movimento: mulheres que acompanhavam o Aurora pelas redes sociais se identificaram com aquela liberdade e procuraram as aulas.
Para Monique, a experiência trouxe uma compreensão ainda mais profunda sobre o que desejava construir por meio da dança. “Percebi que quero oferecer um espaço onde cada mulher possa se expressar sem precisar esconder nenhuma parte de quem é. Ela pode ser profissional, líder, forte, delicada, feminina e, se quiser, sensual. Uma característica não precisa anular a outra.”
Algum tempo depois, a participante que inicialmente havia se sentido desconfortável escreveu no grupo agradecendo pelas experiências vividas nas aulas. Uma frase, em especial, ficou guardada por Monique: “Obrigada por nos ajudar a soltar nossos corpos, que, com as imposições do patriarcado, vão perdendo o movimento.”
Aquelas palavras tocaram em algo que ela própria havia vivido. Durante anos, Monique também precisou lidar com o receio do julgamento e aprender a não esconder partes de si para ser respeitada.
“Passei muito tempo tentando descobrir qual era o meu propósito de vida. Naquele momento, tive certeza: estou aqui para ajudar mulheres a se reconectarem com partes delas mesmas que, em algum momento, aprenderam a esconder — assim como eu também aprendi.”
Para além da dança
Publicitária e dançarina, Monique descobriu a conexão dessas áreas em sua vida: na dança, conecta pessoas ao próprio corpo e às emoções; na comunicação, aproxima ideias de quem precisa recebê-las; e, nos projetos, reúne pessoas, ideias e possibilidades para fazê-los acontecer. “Tenho essa necessidade de tirar coisas do campo das ideias e transformá-las em experiência.”
No fundo, dançar, comunicar e conectar pessoas são maneiras diferentes de fazer a mesma coisa: criar uma experiência que chegue ao outro.
Fiel às pessoas que ama, ela valoriza profundamente suas relações. É muito intuitiva e ligada à espiritualidade e ao autoconhecimento. “Gosto de estudar e experimentar diferentes caminhos nessa área, e estou sempre fazendo algum curso ou conhecendo uma nova prática. Amo viajar, me aventurar e conhecer lugares e culturas. Costumo dizer que viagem transforma — a gente nunca volta mais ao mesmo. Muitos marcos importantes da minha vida aconteceram após uma viagem. Na minha última, por exemplo, voltei decidida a trabalhar com dança e comecei a dar aulas.”
Conta que, durante muito tempo, temeu a morte, sentimento que lhe despertou uma vontade enorme de viver. Talvez por isso ela goste tanto de experimentar, conhecer coisas novas e seguir o fluxo da vida. “Minha família me chama de Dora Aventureira. Tenho um valor muito importante: SERVIR. O trabalho voluntário ocupa um espaço grande na minha vida. Gosto de poder ajudar, estar disponível e fazer o bem. No fundo, sou uma pessoa que gosta de viver intensamente.”
Sonhos? Monique tem muitos: conhecer a cidade de Paris, lugar que sempre despertou sua imaginação e a vontade de conhecer o mundo. Sonha em construir uma família — casar, ter filhos e uma casa branca e azul em um sítio, cercado pela natureza, e um piano na sala. “Profissionalmente, aprendi a não tentar definir toda a minha vida de uma vez. Gosto de deixar espaço para as surpresas do caminho. Tenho muitos desejos, mas também gosto de descobrir para onde a vida ainda pode me levar.”



Extrema de Possibilidades
Para Monique, Extrema teve um papel significativo na construção de quem se tornou. A cidade lhe proporcionou acesso a projetos, atividades e experiências que a ajudaram a descobrir diferentes interesses. Destaca que se formou em Publicidade e Propaganda com uma bolsa de estudos oferecida pelo município.
“Meus amigos me chamam de ‘Barbie profissões’, porque sempre experimentei muitas coisas diferentes. E grande parte dessas experiências aconteceu aqui. Foi em Extrema que tive contato com projetos culturais e de dança desde muito nova. Essas oportunidades me colocaram em contato com o palco, com outras pessoas e com possibilidades que talvez eu nem tivesse imaginado.”
Monique declara seu enorme carinho pela educação que recebeu, pelas amizades que construiu e pela segurança que sempre sentiu na cidade. “Vejo um movimento muito bonito de valorização dos artistas locais e de criação de projetos que dão espaço para as pessoas mostrarem seus talentos. Quando penso na relação entre Extrema e minha trajetória, penso em oportunidade. A cidade não escolheu por mim quem eu seria, mas me deu muitas possibilidades para que eu pudesse me descobrir.”
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