Ricardo Brandão

Ricardo Brandão

Educador físico, gestor público do esporte e faixa-preta de Jiu-Jitsu.

Autonomia: quando aprender também significa descobrir

O aprendizado acontece em parceria: o professor ensina, orienta e cria caminhos, mas o aluno também precisa assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento. No esporte e na vida, autonomia significa aprender a pensar, experimentar, tomar decisões e continuar aprendendo.

08 de setembro de 2026 - 2 semanas atrás

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Existe uma parte do aprendizado que nenhum professor consegue fazer pelo aluno.

Podemos estudar, preparar uma boa aula, organizar o conteúdo, demonstrar uma técnica, corrigir detalhes e compartilhar experiências que levamos anos para construir.

Podemos oferecer todas as ferramentas possíveis. Mas chega um momento em que aprender passa a depender também de quem está do outro lado.

E tenho pensado bastante sobre isso como professor.

Recentemente, gravei todo o roteiro técnico das minhas aulas de Jiu-Jitsu e disponibilizei esse material para os meus alunos. A ideia era simples: permitir que eles pudessem rever as posições, recordar detalhes e estudar também fora do horário da aula.

Durante uma conversa com eles, fiz uma provocação que costumo usar:

“Cinquenta por cento é minha responsabilidade como professor. Os outros cinquenta por cento dependem de vocês.”

Não estou falando de uma divisão matemática. Estou falando de comprometimento.

Minha responsabilidade é estudar, ensinar, corrigir, orientar e criar condições para que o aluno evolua. Mas existe uma parte que eu não consigo fazer por ele. Eu não consigo querer por ele.

E foi justamente observando meus próprios alunos que isso ficou ainda mais claro para mim.

Todos recebem o mesmo conteúdo, mas nem todos se relacionam com o aprendizado da mesma

maneira.

Alguns perguntam mais. Outros reveem o conteúdo várias vezes. Há os que chegam querendo entender por que determinada posição funcionou ou não funcionou: experimentam, erram, voltam e tentam de novo.

E existem aqueles que simplesmente cumprem a aula. Isso não é uma crítica. É uma constatação.

Porque ensinar e aprender fazem parte do mesmo processo, mas são responsabilidades diferentes. O professor ensina. O aluno precisa se colocar no processo.

Há mais de dois séculos, uma experiência educacional colocou justamente essa relação em discussão. O educador francês Joseph Jacotot se viu diante de estudantes com quem não compartilhava a mesma língua. Anos depois, essa experiência foi retomada pelo pensador

Jacques Rancière em O Mestre Ignorante.

Uma das provocações que podemos extrair dessa história é interessante: aprender não significa

apenas receber explicações de alguém que sabe.

Quem aprende precisa mobilizar a própria inteligência. Precisa prestar atenção, comparar, experimentar, relacionar aquilo que já conhece com aquilo que está descobrindo e ter disposição para continuar buscando.

Quando conheci essa ideia, fiz imediatamente uma relação com aquilo que vivencio no esporte. Porque é exatamente isso que acontece no treino.

Ensinar uma técnica é importante. Ensinar a pensar também.

No Jiu-Jitsu, eu posso colocar meus alunos sentados na minha frente e ensinar uma saída.

Mostro a pegada. Explico o posicionamento. Demonstro o movimento do quadril. Apresento os detalhes. Eles repetem.

Tudo isso faz parte do processo e continuará fazendo. Mas existe outro momento do aprendizado que considero igualmente importante.

Eu posso colocar esse mesmo aluno em uma situação e perguntar:

“Qual é o problema que você precisa resolver aqui?”

Ele tenta. Não funciona.

Então pergunto:

“O que está impedindo o seu movimento?”

Ele começa a perceber a pressão do adversário. Tenta novamente. Descobre que precisa criar espaço antes de executar a técnica.

Nesse momento, alguma coisa mudou. Ele não está apenas repetindo aquilo que eu mostrei. Ele começou a compreender aquilo que está fazendo.

E, para mim, existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Autonomia não diminui o professor

É importante deixar isso muito claro.

Estimular autonomia não significa abandonar o aluno e esperar que ele descubra tudo sozinho. Também não significa diminuir a importância da técnica, do método ou da experiência de quem ensina. Muito pelo contrário.

A experiência do professor permite perceber quando é necessário explicar, quando é preciso corrigir, quando uma pergunta pode ajudar e quando o melhor caminho é simplesmente dar espaço para o aluno experimentar.

Ensinar também exige sensibilidade. Porque existem momentos em que o aluno precisa de uma resposta. E existem momentos em que ele precisa de uma boa pergunta.

E nós, professores?

Essa reflexão não serve apenas para quem está aprendendo. Ela também precisa chegar até nós, professores e treinadores.

Que tipo de aluno estamos formando? Um aluno que executa muito bem aquilo que mandamos? Ou alguém que consegue compreender o que está acontecendo e tomar decisões?

Estamos dando espaço para que nossos alunos experimentem? Permitimos que eles errem?

Perguntamos o que eles perceberam ou já entregamos a resposta antes mesmo que tenham entendido o problema?

Eu ensino Jiu-Jitsu, mas essa discussão não pertence ao Jiu-Jitsu. Ela está no futebol, no basquete, na natação, no atletismo, na iniciação esportiva e em qualquer ambiente onde exista alguém ensinando e alguém aprendendo.

Porque nosso trabalho não deveria terminar na execução de uma técnica. Estamos formando pessoas.

E existe responsabilidade do outro lado

Da mesma forma que precisamos olhar para nossa atuação como professores, o aluno também precisa olhar para a própria postura.

Nenhum treinador consegue emprestar vontade. Nenhum professor consegue emprestar atenção.

Eu posso entregar conhecimento. Posso corrigir. Posso incentivar. Posso mostrar caminhos. Posso disponibilizar um vídeo para que o aluno reveja quantas vezes quiser.

Mas eu não consigo assistir por ele. Não consigo estudar por ele. Não consigo treinar por ele. E não consigo decidir o quanto ele realmente deseja evoluir.

Essa parte pertence a ele.

Foi justamente por isso que aquela divisão dos “50%” fez tanto sentido para mim. O aprendizado precisa encontrar responsabilidade dos dois lados.

O esporte nos prepara para quando a resposta não estiver pronta

Esse é um dos pontos que mais me fazem acreditar no esporte como ferramenta de formação.

Uma criança que aprende a observar um problema, experimentar uma solução, errar, receber uma orientação, ajustar sua decisão e tentar novamente está aprendendo muito mais do que um movimento esportivo.

Ela está desenvolvendo recursos para a vida. Porque a vida não vem acompanhada de um professor dizendo qual técnica executar. Nem sempre haverá alguém ao nosso lado dizendo o que fazer.

Em muitos momentos, vamos precisar observar o cenário, compreender o problema, tomar uma decisão e assumir as consequências dela.

É aí que responsabilidade e autonomia se encontram.

Na coluna anterior, falei justamente sobre responsabilidade e sobre uma pergunta que considero fundamental: “O que depende de mim?”

Agora acrescento outra: “Aquilo que depende de mim, estou realmente disposto a fazer?”

Ensino aprendendo. Aprendo ensinando.

Ao longo da minha caminhada no esporte, fui entendendo que a relação entre professor e aluno não acontece em uma única direção. Eu ensino, mas também aprendo.

Observo meus alunos, revejo meus métodos, mudo explicações, encontro novas maneiras de apresentar um problema e, muitas vezes, percebo coisas que não perceberia sozinho.

Por isso uma ideia sempre fez muito sentido na minha vida:

“Ensino aprendendo e aprendo ensinando.”

O conhecimento continua circulando. O professor possui experiência e responsabilidade sobre aquilo que ensina, mas precisa continuar aberto.

O aluno recebe orientação, mas também precisa assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento.

Quando essas duas partes se encontram, o aprendizado ganha outra dimensão.

No fim das contas, uma das maiores realizações de um professor não está apenas em ver um aluno executar perfeitamente aquilo que foi ensinado. Está em perceber que, aos poucos, ele já consegue observar sozinho. Pensar. Tomar decisões. Encontrar soluções. E continuar aprendendo.

Porque chegará um momento em que o professor não estará ao lado. E se o esporte realmente cumpriu seu papel de formação, aquilo que ensinamos continuará caminhando através daquela pessoa.

Essa, para mim, é a verdadeira autonomia. Não formar alguém que apenas saiba repetir aquilo que aprendeu. Formar alguém que aprendeu a continuar aprendendo.

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