
Fabrício Lopes
Empresário, escritor e ex-usuário de drogas.

Empresário, escritor e ex-usuário de drogas.
A paixão costuma ser marcada pelo encantamento, pela idealização e pelas emoções intensas, o amor verdadeiro se constrói na maturidade, no respeito, na paciência e no cuidado. O texto reflete sobre a diferença entre sentir intensamente e construir uma relação saudável. Afinal, a paixão pode fazer o coração disparar, mas é o amor que oferece segurança, acolhimento e paz para permanecer.
30 de outubro de 2026 - 5 dias atrás

Vivemos em uma sociedade apaixonada pela intensidade. Queremos emoções fortes, experiências arrebatadoras, sentimentos que nos tirem o fôlego. Parece que, se o coração não dispara, se não há frio na barriga ou uma necessidade quase incontrolável de estar perto, então não é amor. Mas será que estamos confundindo a intensidade de um sentimento com a profundidade de uma relação?
A paixão é fascinante, mas também pode ser perigosa. Ela tem a capacidade de nos fazer enxergar o que desejamos, e não necessariamente o que existe. Apaixonados, projetamos no outro nossas expectativas, nossos sonhos e até nossas carências. Muitas vezes, não nos apaixonamos por uma pessoa, mas pela imagem que construímos dela.
A paixão é como uma cachoeira: intensa, barulhenta, impetuosa. Suas águas impressionam, mas também podem nos arrastar.
O amor, por sua vez, é como um rio de águas tranquilas: profundo, constante, capaz de sustentar a vida por onde passa.
Isso não significa que a paixão seja ruim. Pelo contrário, ela frequentemente é a porta de entrada para o amor. É a faísca que desperta o interesse, a atração que aproxima dois desconhecidos, o entusiasmo que nos impulsiona a descobrir alguém. O problema começa quando desejamos viver eternamente na cachoeira, sem compreender que a verdadeira profundidade também se encontra na calmaria.
A paixão é fogo consumidor. Arde, aquece, ilumina, mas, quando descontrolada, também destrói. O amor é temperatura constante, não precisa incendiar tudo ao redor para demonstrar sua existência.
O amor aquece sem consumir, acolhe sem aprisionar e permanece mesmo quando a empolgação inicial já não é tão intensa.
E aqui surge uma provocação: quantas pessoas estão sacrificando sua paz emocional em nome de algo que chamam de amor, mas que talvez seja apenas paixão?
Ciúmes excessivos, dependência emocional, necessidade de controle e medo constante de perder alguém não são provas de amor. São sinais de que algo precisa ser compreendido e cuidado. Nem tudo aquilo que acelera o coração faz bem à alma.
O verdadeiro bem-estar emocional exige que aprendamos a distinguir aquilo que nos emociona daquilo que nos faz bem. Nem toda intensidade é saudável. Nem toda tranquilidade é falta de sentimento. Às vezes, aquilo que interpretamos como monotonia é justamente a segurança de uma relação que amadureceu.
O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 13, apresenta uma definição extraordinária do amor. Ele não o descreve como uma explosão de emoções, mas como uma maneira de agir: o amor é paciente, bondoso, não é invejoso, não busca seus próprios interesses, não se irrita facilmente e não guarda rancor. E conclui afirmando que o amor nunca perece.
Observe: Paulo não define o amor pelo que sentimos quando tudo está bem, mas por aquilo que somos capazes de oferecer mesmo quando as circunstâncias não favorecem nossos sentimentos.
Talvez seja essa a grande diferença:
A paixão deseja possuir; o amor aprende a cuidar.
A paixão exige reciprocidade imediata; o amor desenvolve paciência.
A paixão pergunta: “O que você me faz sentir?” O amor pergunta: “Como posso contribuir para o seu bem?”
Amar não significa perder a capacidade de se apaixonar. Um relacionamento saudável pode preservar o encantamento, o desejo e a admiração. Mas essas emoções precisam encontrar abrigo na maturidade, no respeito e na liberdade.
A paixão pode iniciar uma história extraordinária, mas não consegue, sozinha, sustentá-la. Para isso, é preciso que o sentimento amadureça, que a idealização dê lugar ao conhecimento e que o desejo de conquistar se transforme na disposição de permanecer.
No fim, talvez a maior prova de amor não esteja na intensidade com que alguém entra em nossa vida, mas na paz que sua presença é capaz de produzir.
Porque a paixão nos faz perder o chão.
O amor nos ajuda a construir um lugar seguro para permanecer.
E você, tem buscado alguém que faça seu coração disparar ou alguém com quem seu coração finalmente possa descansar?
Dedico esse texto a mulher que me ensinou a amar, Denise…
Outros assuntos




