Ricardo Brandão
Educador físico, gestor público do esporte e faixa-preta de Jiu-Jitsu.
Educador físico, gestor público do esporte e faixa-preta de Jiu-Jitsu.
O esporte ensina responsabilidade e protagonismo para a vida ao nos fazer focar no que depende de nós mesmos, em vez de buscar culpados e desculpas externas.v
10 de agosto de 2026 - 1 semana atrás
Existe uma pergunta que pode mudar completamente a forma como uma pessoa vive o esporte e a própria vida: “O que depende de mim?”
Pode parecer simples. Mas, muitas vezes, é essa pergunta que separa quem evolui de quem permanece preso às circunstâncias.
Vivemos em uma época em que encontrar culpados parece mais fácil do que encontrar soluções.
Quando algo dá errado, rapidamente procuramos uma explicação fora de nós: foi o árbitro, foi o treinador, foi o adversário, foi a equipe, foi a falta de estrutura, foi o clima, foi a sorte. Algumas dessas situações realmente existem — seria ingenuidade dizer que tudo está sob nosso controle.
Mas existe uma diferença importante entre reconhecer as dificuldades e entregar a elas o comando da nossa vida. É justamente nesse ponto que nasce a responsabilidade. Não como culpa. Como protagonismo.
A responsabilidade começa onde termina a desculpa
Existe uma tendência natural do ser humano de proteger a própria imagem. Quando erramos, é confortável explicar o erro olhando para fora — isso diminui o peso da frustração, mas também diminui nossa capacidade de aprender.
O esporte ensina algo diferente. Ele convida o atleta a fazer uma pergunta mais difícil: “O que eu poderia ter feito melhor?”
Essa pergunta não ignora as circunstâncias. Ela apenas devolve ao atleta aquilo que nunca deveria ser terceirizado: a própria evolução. Porque ninguém cresce enquanto acredita que tudo depende dos outros.
O espaço entre o que acontece e a nossa resposta
Viktor Frankl, psiquiatra austríaco que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, escreveu uma reflexão que atravessou gerações: “Entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço está a nossa liberdade.”
Talvez essa seja uma das definições mais bonitas de responsabilidade. Não escolhemos tudo o que acontece conosco. Mas escolhemos como responder. Essa ideia também aparece no estoicismo.
Epicteto ensinava que não são os acontecimentos que nos perturbam, mas a forma como os interpretamos.
No esporte, isso é visível. Dois atletas podem viver a mesma derrota. Um sai procurando culpados. O outro sai procurando aprendizado. O resultado foi o mesmo — a resposta foi completamente diferente. E, normalmente, é essa resposta que determina quem continuará evoluindo.
O esporte forma protagonistas
Uma das maiores contribuições do esporte para a formação humana é ensinar protagonismo.
No treino, não adianta culpar o colega porque você perdeu uma posição. Na competição, não adianta culpar apenas a arbitragem. Na preparação física, não adianta responsabilizar apenas o calendário.
Tudo isso pode influenciar. Mas nunca substitui a pergunta mais importante: “O que depende de mim agora?”
Essa pergunta muda o foco. Sai da reclamação, vai para a ação. Sai da justificativa, vai para a construção. Sai da culpa, vai para a responsabilidade.
O Jiu-Jitsu e a honestidade do tatame
No Jiu-Jitsu existe uma característica que sempre me chamou atenção: o tatame dificilmente aceita desculpas.
Quando uma técnica não funciona, normalmente existe algo para ajustar — um detalhe na pegada, um posicionamento, um tempo de entrada, uma decisão tomada cedo demais, ou tarde demais. Isso exige honestidade.
Porque assumir responsabilidade não significa se culpar. Significa reconhecer que sempre existe algo que podemos aperfeiçoar. E essa talvez seja uma das maiores riquezas das artes marciais: elas ensinam que a evolução começa quando abandonamos a necessidade de justificar tudo.
Responsabilidade também é liberdade
Muitas pessoas enxergam responsabilidade como um peso. Eu enxergo exatamente o contrário: responsabilidade é liberdade.
Porque, quando assumo aquilo que depende de mim, deixo de esperar que o mundo resolva a minha vida. Volto a dirigir minhas escolhas. Volto a decidir minhas atitudes. Volto a construir meu caminho.
Essa postura muda completamente a forma como treinamos, lideramos, educamos e vivemos.
No esporte, os melhores atletas não são aqueles que nunca erram. São aqueles que aprendem mais rápido com os próprios erros.
A responsabilidade inspira
Essa virtude também transforma quem está ao nosso redor.
Um treinador responsável inspira confiança. Um professor responsável forma melhores alunos. Um gestor responsável fortalece equipes. Um atleta responsável influencia o grupo inteiro.
Porque responsabilidade é uma atitude silenciosa. Ela aparece quando ninguém está olhando: na forma como nos preparamos, na forma como cumprimos a palavra, na maneira como tratamos as pessoas, na coragem de assumir erros sem procurar culpados.
Conclusão
O esporte nos ensina que nem sempre controlamos o resultado. Mas sempre podemos controlar a forma como nos preparamos, a forma como reagimos, a forma como aprendemos, a forma como seguimos.
Responsabilidade não é carregar o peso de tudo. É assumir com maturidade aquilo que realmente depende de nós.
Talvez a liberdade não esteja em controlar a vida. Talvez a verdadeira liberdade esteja em escolher, todos os dias, como responder a ela. E talvez seja por isso que o esporte forme tanto — porque, antes de ensinar a vencer adversários, ele nos ensina a assumir a responsabilidade pela pessoa que estamos nos tornando.
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