Prof.ª Lourdinha

Prof.ª Lourdinha

Professora de Língua Portuguesa e vice-diretora da EE Odete Valadares.

O Reino

Entre riqueza, pertencimento e exclusão, nasce a reflexão sobre qual reino estamos construindo.

26 de maio de 2026 - 4 semanas atrás

| | | | | | | | | | |

Era um entre os 5570 espaços. O que havia de diferenciado nele, fora a parte natural, não tão bem cuidada como merecia dada a sua beleza, é que se diferenciava por se fazer parecer rico. Não tão grande em espaço. Demasiadamente populoso e com uma avidez por crescimento. Não raras vezes, boa parte da população era obrigada a acomodar-se em cubículos. Uma pena! Quando o campo de visão é reduzido, desenvolve-se uma tendência a se encolher, os sonhos ficam menores. Tristes, as crianças ficam mais irritadas, muito perto dos adultos.

A fama daquele espaço específico era a de muita riqueza. Algumas pessoas gostavam de declarar tal fato, números sempre maiores do que os de outros lugares. Não raro era dita a frase: esse espaço é meu! Essa certeza fez com que dúvidas nascessem. Se outrora tivesse sido apenas um local de passagem, a quem realmente pertencia aquele espaço? Quais foram os primeiros povos a se fixarem? De quem foram comprados os primeiros terrenos?

Alguns pensamentos são apenas para que a gente possa cismar, observar a diferença entre os posicionamentos das pessoas, algumas chegam ávidas, comparando aqui com algo que deixaram, outras chegam como se fossem as verdadeiras donas de qualquer lugar onde estejam, comprando, vendendo, ocupando vários espaços e assim, é construída a crença de um grande poder. Dividindo-se em os daqui e os de acolá.

Certa vez ouvi a frase: é curva de rio, tudo para aqui. Achei muito interessante porque não consegui construir um sentido para essa fala, fico tentada a pensar: quem realmente pertence a essa curva? Quem é tradicional? Talvez as respostas a essas perguntas não sejam facilmente dadas, considero que a ousadia está apenas em pensar na pergunta.

Altos valores não fazem sentido para quem está excluído da grandeza que tentam representar. Utilizando a descrição que ouvi sobre curva de rio com uma conotação negativa, passo à denotação de um dicionário que encontrei: meandro, uma sinuosidade natural no leito de um rio em áreas de planície. Ela se forma devido à ação da erosão na margem externa (côncava) e à deposição de sedimentos na margem interna (convexa), permitindo que o curso d´água altere o seu desenho ao longo do tempo. Essa sugestão de que as pessoas podem ficar paradas não me parece verdadeira, pois é o movimento delas que faz com que as cifras aumentem e se acumulem.

Se alguma coisa ficou parada nessa curva, pode ter sido justamente aquilo que não foi corretamente distribuído para se construir o bem viver. Olhando acima do que se tornou o meandro pode-se sonhar com a construção de um reino que não tenha rei.

Profa. Lourdinha

Outros assuntos