A extremense Maria Gabriela de Souza Sales Cabral, a Gabi, 42 anos, construiu com planejamento, dedicação e coragem o caminho que a levou aos Estados Unidos, onde hoje atua como empresária nas áreas de educação internacional e construção civil. Transformou o conhecimento, os intercâmbios e a paixão pela educação em oportunidades que ultrapassaram fronteiras e a conduziram à construção de uma nova vida em solo americano.

Mas para compreender essa trajetória de conquistas, é preciso conhecer a menina curiosa, comunicativa e apaixonada por aprender que, ainda aos 10 anos, descobriu sua facilidade para o idioma inglês e iniciou uma jornada que transformaria sua vida.

Meus pais incentivaram muito os estudos, a curiosidade e o aprendizado de idiomas. Me ensinaram a acreditar que a educação poderia abrir portas e criar oportunidades.

Filha de José Honório e Cleusa Costa, e irmã de Rafael, Gabriel e Pedro, Gabi nasceu e cresceu em Extrema. As lembranças da infância permanecem vivas principalmente nas fotografias que registram momentos ao lado da família, dos irmãos e da comunidade, em ocasiões como apresentações de ginástica, carnavais e coroações de Santa Rita.

Estudou na Escola Estadual Odete Valadares e guarda com carinho a lembrança de professoras que marcaram sua trajetória escolar. “Cristina Bonifácio, Maria Adélia, Nely, Roseli, Enilda, Cleomilda e minha mãe, Cleusa.”

Ainda durante o Ensino Médio, cursou o Técnico em Turismo, oportunidade que ampliou seu contato com áreas que sempre despertaram seu interesse, como inglês, espanhol, francês, História da Arte e Museologia.

Aos 19 anos, mudou-se para Campinas (SP), onde iniciou sua formação superior. Graduou-se em Administração de Empresas pela Universidade São Francisco (USF) e concluiu uma pós-graduação em Planejamento Estratégico pela Faculdade de Extrema – FAEX.

O interesse pela educação continuou presente em sua busca por novos conhecimentos e aperfeiçoamento. Formou-se em Letras – Inglês pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e, na sequência, realizou uma pós-graduação em Educação Empreendedora pela Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ). Também se especializou em User Experience pela Universidade Anhembi Morumbi e concluiu uma segunda licenciatura em Letras – Português e Espanhol pela FAVENI.

“Sempre me interessei tanto pela área de gestão e planejamento estratégico quanto pela educação. Hoje, percebo como esses conhecimentos se complementam nas empresas que desenvolvo nos Estados Unidos”, afirma.

Aos 25 anos, Gabi retornou a Extrema já casada com Rusdney Cabral, com quem construiu sua família e teve os filhos Davi e Samuel. Foi também nesse período que surgiu uma oportunidade que marcaria sua trajetória profissional: atuar como professora em uma escola de idiomas da cidade.

A experiência despertou uma paixão que a acompanharia pelos anos seguintes. Mais do que ensinar um novo idioma, ela descobriu o prazer de ajudar pessoas a alcançarem seus objetivos por meio da educação.

Se na infância o sonho de fazer um intercâmbio parecia algo distante, principalmente pelas limitações financeiras, foi nessa fase da vida que ele começou a ganhar forma.

“Aos 27 anos, já casada e trabalhando como professora de inglês, tomei uma das decisões mais importantes da minha vida. Um dia, virei para o meu marido e disse: ‘Vamos tirar nossos passaportes, porque eu vou fazer um intercâmbio’”, relembra.

O casal ainda não possuía os recursos necessários para realizar o projeto, mas decidiu transformá-lo em um plano. Organizaram as finanças, renunciaram a diversos gastos e economizaram cada centavo durante meses.

O esforço foi recompensado. Ao embarcar para a Irlanda, Gabi não viajava apenas para estudar. “Estava investindo no meu crescimento pessoal e profissional, ampliando minha visão de mundo e construindo as bases do nosso futuro”, afirma.

Ao retornar ao Brasil, continuou sua jornada internacional estudando no Chile. Ao mesmo tempo, seguiu construindo carreira na área da educação: foram seis anos trabalhando em uma escola de idiomas, aperfeiçoando suas habilidades como professora e acompanhando de perto o desenvolvimento de centenas de alunos.

“Com o nascimento do meu segundo filho, decidi dar um novo passo profissional e adquiri uma franquia especializada em turismo e intercâmbio, consolidando minha presença no mercado de educação internacional.”

Foi quando Gabi percebeu que o intercâmbio ia muito além do aprendizado acadêmico. “Ele tem o poder de ampliar horizontes, desenvolver habilidades para a vida e criar oportunidades que podem impactar positivamente o futuro de uma pessoa para sempre.”

A educação continuou a lhe abrir portas. Durante a pandemia, enquanto atuava na área de Educação Internacional, a ideia de viver em outro país deixou de ser apenas uma possibilidade e passou a fazer parte dos planos da família. Trabalhando com educação internacional, enviou sua candidatura para programas de mestrado em cinco países diferentes e foi aceita em todos.

“Nessa época, prestava serviço para uma empresa americana, preparando processos de visto consular para brasileiros em várias partes do mundo. Foi um parceiro de trabalho quem me falou, pela primeira vez, sobre um visto imigratório para pessoas com habilidades excepcionais em sua área.”

“Vejo a educação não apenas como uma ferramenta de desenvolvimento profissional, mas como um instrumento capaz de ampliar oportunidades, conectar culturas e transformar vidas.”

A partir dali, iniciou um novo projeto de vida. O processo imigratório escolhido proporcionaria à família a Residência Permanente (Green Card) por meio da categoria denominada Habilidade Excepcional de Interesse Nacional.

Para obter a aprovação, precisou comprovar ao governo americano uma trajetória profissional e acadêmica de destaque, atendendo aos critérios exigidos para profissionais com habilidades excepcionais e de interesse nacional.

Com o auxílio do marido, reuniu evidências, redigiu o próprio processo de imigração e enviou toda a documentação de Extrema para o Texas, nos Estados Unidos. “O governo informava que a análise poderia levar até 18 meses, mas fui aprovada em apenas três meses”, relembra.

Sua aprovação ocorreu na categoria de Especialista em Educação Internacional. O processo seguiu seu curso e, a cada fase concluída, a família se aproximava do objetivo de viver nos Estados Unidos.

Entre a preparação da documentação, a aprovação, os exames médicos, a entrevista consular e a mudança efetiva, foram 17 meses de planejamento, dedicação e expectativa.

A conquista representou muito mais do que uma aprovação migratória. Era a confirmação de que anos de estudo, perseverança e trabalho haviam aberto as portas para um novo capítulo da vida de sua família nos Estados Unidos.

VIVENDO EM SOLO AMERICANO

Viver nos Estados Unidos lhe trouxe desafios, aprendizados e descobertas que vão muito além da adaptação a uma nova rotina. Mesmo dominando o idioma inglês há muitos anos, Gabi admite que ainda sente um frio na barriga ao se apresentar em eventos e encontros profissionais. Com o tempo, aprendeu a enxergar os idiomas como uma ponte entre culturas, sem a cobrança pela perfeição. Segundo ela, nunca enfrentou situações de preconceito por ser estrangeira. Pelo contrário: encontrou curiosidade, acolhimento e interesse genuíno pela cultura brasileira.

Entre os aspectos que mais a impressionaram nos Estados Unidos estão a educação, o senso de comunidade e a forma como as pessoas valorizam o tempo. Segundo ela, o respeito ao próximo se manifesta em atitudes simples do cotidiano, desde um pedido de licença em um supermercado até a consideração pelo espaço e pelas necessidades de cada indivíduo.

O forte espírito comunitário também chamou sua atenção. Crianças são incentivadas desde cedo a assumir responsabilidades e participar ativamente da organização dos ambientes que frequentam. Já os adultos se envolvem em ações voluntárias, atividades escolares, projetos sociais e iniciativas comunitárias. A cultura da colaboração e da doação está presente em diferentes esferas da sociedade.

Outro valor que passou a admirar é a importância atribuída ao tempo. Na sua percepção, os americanos reconhecem e respeitam a dedicação das pessoas, seja por meio do trabalho, do conhecimento compartilhado ou da simples disposição em ajudar alguém.

Uma experiência vivida recentemente reforçou essa percepção. Ao agradecer a um amigo que havia contratado os serviços de sua empresa de carpintaria, ouviu como resposta que a escolha também era uma forma de retribuir o tempo, a amizade e o carinho dedicados à família dele. Para Gabi, situações como essa demonstram uma cultura de reconhecimento, incentivo e gratidão que tem enriquecido profundamente sua experiência nos Estados Unidos.

Apesar dos desafios naturais de uma mudança internacional, a ideia de retornar ao Brasil não faz parte dos planos da família. Adaptados à nova realidade, encontraram nos Estados Unidos um ambiente propício para desenvolver projetos, construir relacionamentos e criar novas oportunidades.

CARRREIRA INTERNACIONAL

A reconstrução da carreira em outro país exigiu de Gabi coragem, resiliência e capacidade de adaptação. Embora já tivesse uma trajetória consolidada na área de educação internacional no Brasil, precisou compreender uma nova cultura de negócios, criar uma rede de contatos e aprender a atuar em um mercado diferente.

Hoje, é sócia de duas empresas. A New Connections, que atua no desenvolvimento de programas educacionais para jovens, oferecendo experiências acadêmicas estruturadas para escolas, organizações sem fins lucrativos e instituições voltadas à formação estudantil. Também auxilia brasileiros que desejam ingressar em universidades americanas, orientando-os em sua preparação acadêmica.

E a RC Construction Carpentry, especializada em carpintaria de acabamento e construção de espaços externos personalizados, como decks, pérgolas, gazebos e varandas. A atuação da empresa inclui projetos residenciais de alto padrão e soluções comerciais desenvolvidas com foco em qualidade, planejamento e atenção aos detalhes.

Administrar empresas em segmentos tão distintos exige aprendizado constante. Para Gabi, os maiores desafios têm sido ampliar conexões profissionais, aprofundar conhecimentos sobre o mercado americano e acompanhar as transformações de cada setor. Nesse processo, a resiliência e a perseverança, características que atribui à sua formação como brasileira, foram fundamentais para superar obstáculos e construir novas oportunidades.

Apesar das conquistas profissionais, ela afirma que sua maior realização está na família. Ver os filhos adaptados, felizes e prosperando em uma nova cultura é motivo de orgulho. Ao mesmo tempo, segue dedicada à educação, área que considera capaz de ampliar horizontes e criar oportunidades para jovens que buscam construir um futuro diferente.

DESCOBERTAS

Morar fora também reforçou sua conexão com as próprias raízes. Distante do Brasil, passou a valorizar ainda mais características que considera marcantes na cultura brasileira, como a alegria, a capacidade de adaptação, a comunicação espontânea e a facilidade de criar laços.

De Extrema, carrega saudades das amigas maravilhosas, de tomar café apreciando a Serra da Mantiqueira, das corridas de sábado seguidas do café da manhã e da coxinha deliciosa do pai – “A melhor!”, diz Gabi.

Além da vida profissional, a corrida tornou-se uma importante aliada para manter o equilíbrio físico e emocional. É durante os treinos que muitas ideias surgem, planos são organizados e desafios encontram soluções. O esporte passou a integrar sua rotina como uma ferramenta de disciplina, clareza mental e qualidade de vida.

A experiência internacional também fortaleceu sua fé. Cristã, Gabi afirma que a gratidão e a confiança em Deus estiveram presentes em cada etapa da jornada, tanto nos momentos de dificuldade quanto nas conquistas.

Para quem sonha em estudar, trabalhar ou morar no exterior, ela defende que informação, planejamento e ação são fundamentais. Mas acredita que nenhum projeto se sustenta apenas na vontade. Sonhos exigem coragem, disciplina, persistência e fé.

“Em tudo, dai graças” (1 Tessalonicenses 5:18), cita. Uma mensagem que resume a forma como enxerga sua trajetória: construída com trabalho, aprendizado, gratidão e a coragem de acreditar que novos caminhos podem começar muito além das fronteiras.

Outros assuntos