Ricardo Brandão
Educador físico, gestor público do esporte e faixa-preta de Jiu-Jitsu e kickboxing.
Educador físico, gestor público do esporte e faixa-preta de Jiu-Jitsu e kickboxing.
A vontade de vencer é importante no esporte, mas não pode se transformar em obsessão pelo resultado. A verdadeira vitória nasce da preparação, da presença e do equilíbrio emocional. O esporte ensina disciplina, humildade e autocontrole, formando pessoas capazes de vencer sem se perder no caminho.
13 de maio de 2026 - 2 semanas atrás
Todo atleta quer vencer. E não há nada de errado nisso.
A vontade de vencer é uma força importante. Ela acende algo dentro de nós. Faz levantar mais cedo, treinar mesmo cansado, suportar a repetição, enfrentar o desconforto e continuar quando muitos já teriam parado.
Mas existe uma linha muito fina entre querer vencer e ser dominado pelo resultado.
Quando a vitória se torna apenas uma obsessão pelo placar, pela medalha, pelo pódio ou pelo reconhecimento, o atleta corre o risco de sair do lugar mais importante da performance: o presente.
Porque, no esporte, não basta querer ganhar. É preciso estar inteiro no que precisa ser feito.
A vontade de vencer precisa ser educada
Querer vencer é natural. Talvez todo atleta, em algum momento, tenha sentido essa energia. Aquela vontade de provar para si mesmo que é capaz. De mostrar que o esforço valeu a pena. De transformar o treino, a renúncia e o cansaço em resultado.
Essa vontade é necessária. Sem ela, dificilmente alguém sustenta o processo.
Mas, quando não é bem conduzida, a vontade de vencer pode virar ansiedade. Pode se transformar em pressa, tensão, descontrole e medo de errar. O atleta começa a pensar no resultado antes de executar a ação.
Pensa no placar antes da jogada. Pensa na medalha antes da luta. Pensa no pódio antes da respiração. Pensa no reconhecimento antes do processo.
E quando isso acontece, algo se perde. O corpo está ali, mas a mente já está no futuro.
A vontade de vencer, nesse caso, deixa de ser combustível e passa a ser peso.
Por isso, ela precisa ser educada. Não para diminuir a ambição. Não para enfraquecer o desejo. Mas para canalizar essa energia na direção certa.
A vontade de vencer deve alimentar a execução, não atrapalhá-la.
O resultado pertence ao fim. A presença pertence ao agora
Existe uma diferença profunda entre desejar vencer e estar preparado para vencer.
Desejar vencer qualquer pessoa pode desejar. Mas sustentar a presença, controlar as emoções, manter a lucidez sob pressão e executar aquilo que foi treinado exige outro nível de consciência.
Os grandes campeões, em diferentes modalidades, parecem compreender isso com muita clareza. Não chegam ao alto rendimento apenas porque querem vencer. Chegam porque aprendem a transformar essa vontade em rotina, preparação, repetição e presença.
A vitória começa muito antes do resultado. Começa no treino que ninguém vê. Na escolha de repetir o básico. Na capacidade de fazer bem feito mesmo sem aplauso. Na decisão de manter o foco quando o corpo quer descansar e a mente começa a negociar.
O resultado aparece no fim. Mas a construção acontece todos os dias. E talvez seja esse um dos grandes ensinamentos do esporte: quem vive preso ao resultado perde a oportunidade de aprender com o caminho.
A armadilha de ficar preso ao resultado
Quando o atleta fica preso apenas ao resultado, ele se desconecta do processo. E quando se desconecta do processo, perde qualidade de presença.
No futebol, isso acontece quando um jogador erra uma jogada e continua preso naquele erro, deixando de participar da próxima ação.
No vôlei, quando uma equipe perde um ponto decisivo e leva aquela frustração para o ponto seguinte.
Na natação, quando o atleta pensa tanto no tempo final que se desconecta da saída, da respiração, da virada e da técnica.
No combate, isso fica ainda mais evidente. Se o lutador entra pensando somente em vencer, pode se precipitar. Pode endurecer. Pode tentar resolver tudo de uma vez. Pode gastar energia emocional antes da hora.
E muitas vezes é justamente aí que ele se perde. Porque vencer exige intensidade. Mas também exige lucidez.
A presença não elimina a vontade de vencer. Ela organiza essa vontade.
O que as artes marciais ensinam sobre vencer
Nas artes marciais, a vitória começa muito antes de superar o adversário. Ela começa no domínio de si.
No Jiu-Jitsu, por exemplo, não basta querer finalizar. É preciso sentir o peso, controlar a respiração, entender o tempo, aceitar a pressão, ajustar o corpo, esperar a oportunidade e executar no momento certo.
A pressa entrega espaço. A ansiedade entrega posição. O ego entrega estratégia.
Por isso, dentro do tatame, vencer não é apenas impor sua vontade sobre o outro. É conseguir não ser dominado por si mesmo.
Essa talvez seja uma das maiores lições das artes marciais: antes de vencer alguém, é preciso vencer aquilo que, dentro de nós, tenta nos tirar do centro.
O medo. A pressa. A vaidade. A necessidade de provar algo. A vontade de controlar tudo.
E talvez seja por isso que a expressão “vencer a si mesmo” tenha tanta força. Porque, no fundo, o adversário está à frente, mas a primeira luta acontece dentro.
Ganhar também testa o caráter
Fala-se muito sobre como a derrota ensina. Mas a vitória também ensina – e também revela.
Ela revela como lidamos com o sucesso. Com o reconhecimento. Com a superioridade momentânea. Com o elogio. Com a sensação de ter conseguido.
A vitória, quando não é bem compreendida, pode deformar. Pode alimentar vaidade. Pode gerar arrogância. Pode criar a ilusão de que o resultado valida qualquer postura. Pode fazer o atleta esquecer o caminho que o levou até ali.
Por isso, aprender a ganhar também é parte da formação. Ganhar sem se perder exige humildade. Exige entender que a vitória não nos torna maiores que ninguém. Apenas confirma, naquele momento, que um processo foi bem executado.
O verdadeiro campeão não é apenas aquele que vence. É aquele que consegue vencer mantendo respeito, consciência e presença. A vitória como consequência A vontade de vencer é necessária.
Mas ela precisa estar a serviço do processo. Quando o atleta está inteiro no que faz, ele deixa de ser refém do resultado. Ele compete com intensidade, mas não com desespero. Ele busca vencer, mas não se perde quando o caminho fica difícil. Ele entende que sua responsabilidade está na entrega, na preparação, na postura e na execução.
O resultado vem depois. Pode vir como vitória. Pode vir como derrota. Mas, em ambos os casos, haverá formação se houver consciência. É isso que tira o esporte da superficialidade.
Não é apenas sobre ganhar ou perder. É sobre o que cada experiência constrói dentro de quem pratica.
Conclusão
Aprender a ganhar é tão importante quanto aprender a perder. Porque a vitória também testa o indivíduo.
A vontade de vencer deve existir. Ela é combustível. Ela impulsiona. Ela ajuda a sustentar o caminho.
Mas essa vontade precisa ser educada. Quando é dominada pelo ego, vira ansiedade. Quando é guiada pela presença, vira performance. Quando é sustentada pela preparação, vira consequência.
No fim das contas, vencer não é apenas chegar primeiro, levantar um troféu ou subir ao pódio. Vencer é conseguir estar inteiro no processo. É executar com consciência. É manter a humildade depois do resultado. É entender que a maior vitória talvez não esteja apenas em superar o outro, mas em vencer aquilo que, dentro de nós, tenta nos tirar do caminho.
Porque o esporte, quando vivido com profundidade, não forma apenas campeões. Forma pessoas capazes de vencer sem se perder.
Outros assuntos