2200 Caracteres com
MUITO ALÉM DO BASQUETE
Cocoon
24 de junho de 2026
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24 de junho de 2026
Suas palavras são cheias de paixão e gratidão pela vida, pela enorme família, que vai muito além das filhas Mariah e Eloah, e da esposa Erica. Everton Rodrigo Sabião, 40 anos, faz jus a seu apelido, Cocoon (em inglês significa casulo): ao se abrir para a vida, aprendeu a colher e acolher tudo de bonito que viria através de sua grande paixão: o basquete.
Natural de Extrema, filho de Marisa Cristina da Silva Sabião e José Sabião, Rodrigo tem dois irmãos, Weliton Rafael e Wilian Renato Sabião. Sua infância foi livre e feliz. “Digo aos meus alunos que a minha geração aproveitou a infância até os 16 anos. Muitas vezes nem almoçava só para ficar na rua empinando pipa, brincando de pique-esconde, queimada. Foi uma época maravilhosa.”



Desde cedo, abraçou o esporte, mas não imaginava que viraria uma profissão. Como quase todo menino, tentou o futebol, entre 11 e 12 anos. “Treinava na escolinha de futebol do Cruzeiro, mas eu era muito ruim! Joguei vôlei, um pouco de handebol, treinava com meu irmão, mas ao conhecer o basquete me apaixonei.”
A primeira experiência com a modalidade foi na escola Odete Valadares. Recorda que não havia bola de basquete no local, então um amigo pegou a bola de vôlei e começaram a tentar acertar a cesta. “De repente, a gente estava praticando!”
Foi amor à primeira vista. “Era desafiador acertar a bola lá no alto e poucos eram bons nisso. Foi o desafio que me pegou, gostava de estar entre os melhores. Lembro que foi quando larguei o futebol e tudo mais pelo basquete.”
Apesar de ter começado em uma época em que Extrema contava apenas com uma equipe adulta de basquete, o que limitava suas oportunidades de competição, pois ele era muito novo, Rodrigo nunca desistiu do esporte.
Com dedicação aos treinos e constante aprimoramento dos fundamentos, conquistou seu espaço nas quadras e passou a representar o município em importantes competições, como o JIMI, a LIDARP e torneios realizados em Minas Gerais e São Paulo. Entre as experiências mais marcantes está a participação na Liga Paulista (MLB), que ele define como um momento inesquecível em sua trajetória esportiva.


A transformação
Antes de se tornar professor, Rodrigo apenas amava jogar basquete. “A quadra era o meu lugar. E foi justamente ali que tudo começou a mudar. Algumas crianças começaram a aparecer para brincar e, naturalmente, eu fui compartilhando com elas aquilo que sabia. Aos poucos, uma criança trouxe outra, que trouxe mais uma, e quando percebi, a quadra estava cheia de jovens querendo aprender e fazer parte daquele ambiente.”
O que começou de forma simples foi crescendo cada vez mais. Em 2005, o então prefeito Dr. Luiz, lhe fez o convite que mudaria sua vida: trabalhar no Departamento de Esportes. “Como vou fazer isso? Nem sei ser professor, mas era a oportunidade de trabalhar com aquilo que eu amava.”
Hoje, reconhece naquele momento um presente de Deus. “Antes disso, eu trabalhava como metalúrgico. Fiz cursos, ganhei dinheiro na profissão, mas nunca me senti verdadeiramente feliz. Faltava algo. E foi no esporte que encontrei propósito.”
Rodrigo começou a dar aulas em escolas, depois vieram os projetos, o trabalho no Departamento de Esportes e uma caminhada que já dura mais de duas décadas. “Foram 12 anos de trabalho, uma pausa de alguns anos e, depois, o retorno. São mais de 21 anos nessa correria maravilhosa.”


Hoje, atua como coordenador de Basquete na Prefeitura de Extrema, atendendo mais de 100 crianças. Também é fundador do Wolfs Basketball, composto por atletas que, além de competirem por amor, formam uma família.
Se tem uma coisa que aprendi ao longo desse caminho, é que Deus tem planos que muitas vezes a gente não consegue enxergar no começo. O que parecia apenas uma quadra de basquete acabou se tornando o lugar onde encontrei meu propósito, minha vocação e a oportunidade de fazer a diferença na vida de tantas pessoas.
Conquistas que vão além dos troféus
Ao longo dos anos vieram títulos importantes. Foram conquistas em grandes competições, títulos da LIDARP, participações em torneios estaduais e nacionais, além de experiências marcantes com equipes masculinas e femininas.
Mas quando perguntam qual foi a maior conquista do projeto, a resposta é diferente. “A maior conquista nunca foi um campeonato.” O verdadeiro orgulho está nos atletas que cresceram, construíram suas vidas e continuam carregando os valores aprendidos no projeto.
“Tenho alunos que hoje são pais de família, professores, engenheiros e profissionais de sucesso. E continuam fazendo parte da nossa história.” Através do esporte, Rodrigo procura ensinar disciplina, respeito, amizade e responsabilidade. O sentimento de uma grande família permeia o grupo.
“Tudo que envolve o basquete, a gente decide junto. O projeto não é meu. É nosso.” Inicialmente, a equipe se chamava Lobos. Depois surgiu a curiosidade de descobrir a tradução para o inglês. “Lembrei dos lobos da serra e comecei a pesquisar o significado. Quando vi tudo o que ele representava, parecia que a ideia tinha caído no meu colo.”
Mais do que um nome ou um logotipo, o Wolfs passou a representar pertencimento. “A ideia era que as crianças olhassem para aquilo e pensassem: eu faço parte dessa família.”
Uma das práticas mais importantes é incentivar os atletas mais experientes a acolherem e orientarem os mais novos. “Eles aprendem responsabilidade, empatia e liderança. Aprendem que ajudar alguém é tão importante quanto fazer pontos.”

Segundo ele, essa convivência cria reflexos que vão muito além do esporte. “A gente tenta formar seres humanos melhores. Pessoas que respeitam os pais, os amigos, os professores e que saibam cuidar uns dos outros.”
Talvez seja por isso que membros do projeto nunca tenha se visto apenas como uma equipe. Desde o início, os alunos o chamam de “Tio”. E ele faz questão de manter essa relação próxima. “Eu não quero ser visto apenas como professor. Quero ser visto como amigo, como alguém que eles podem procurar.” Dentro doWolfs, todos se consideram parte de uma mesma família.
“Desde 2005, todo mundo é primo. Pode parecer brincadeira, mas é assim que a gente se enxerga.” Essa conexão explica por que tantos ex-atletas continuam presentes mesmo depois de deixarem as quadras.
A história do Gigante
Entre tantas lembranças, existe uma que resume perfeitamente o impacto do projeto. É a história de Guilherme Batista, conhecido como ‘gigante’, descoberto por Rodrigo ainda na adolescência.
“Eu olhava para ele e pensava: como um menino desse tamanho ainda não joga basquete?” Depois de muito incentivo, ele começou a treinar. Com dedicação e talento, conquistou oportunidades em grandes clubes brasileiros, passando pelo Pinheiros e pelo Palmeiras.
A despedida para São Paulo foi um dos momentos mais emocionantes de toda a trajetória. “Ver ele abraçando o pai antes de ir embora foi uma das cenas mais bonitas que já vivi.”
Anos depois, veio outra conquista. Graças às oportunidades criadas pelo esporte, Guilherme conquistou uma bolsa integral no curso de Engenharia Civil e construiu uma carreira de sucesso. “Hoje ele é um exemplo para os jovens. Essa história mostra exatamente o que o basquete pode fazer na vida de uma pessoa.”
Os desafios de manter um sonho vivo
Depois de mais de duas décadas de trabalho, os desafios continuam. O principal deles é despertar o interesse dos jovens pelo basquete. “Muitas crianças não têm a oportunidade de conhecer a modalidade. Às vezes passam por outros esportes e acabam desistindo antes mesmo de descobrir o basquete.”
Para ele, a missão é apresentar a modalidade o mais cedo possível e mostrar que ela pode abrir portas dentro e fora das quadras. “Já pensei em desistir várias vezes. Mas toda vez que isso acontecia, eu lembrava que desistir significava abandonar pessoas.” Hoje ele define sua missão de uma forma simples. “Para mim, isso não é trabalho. Dá trabalho, mas não é trabalho.”
Hoje, olhando para trás, vejo que o basquete me ensinou muito mais do que técnicas e regras. Ele me deu uma missão. Me permitiu ajudar jovens, construir histórias, transformar vidas e, ao mesmo tempo, transformar a minha própria.
A fé é um dos pilares que sustentam essa convicção. “Eu encaro tudo isso como um presente de Deus. E quando você recebe um presente assim, não tem como simplesmente abandonar.”
A expectativa é continuar crescendo, alcançando mais jovens e consolidando Extrema como uma referência regional da modalidade. “O objetivo é simples: fazer mais pessoas conhecerem o basquete, criar oportunidades e continuar transformando vidas.”
Rodrigo ainda olha para tudo isso com a mesma surpresa de quem começou sem imaginar onde chegaria. “Nunca pensei que fosse viver algo assim. Mas quando vejo tudo o que construímos juntos, só consigo agradecer.”


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