Apaixonada pelas artes desde a infância, Sissy Líria de Moura, 48 anos, transformou os palcos em uma extensão da própria vida. Atriz, produtora, figurinista e advogada, há mais de três décadas ajuda a escrever a história da cultura em Extrema. Seu nome, delicado como o lírio, parece traduzir sua essência: criatividade, sensibilidade e arte.

Sissy nasceu em Extrema, numa época em que a cidade era “pacata e respirava imaginação e liberdade”, como se referiu.  “Tive uma infância feliz e tranquila. Dividia os dias entre os estudos, na Escola Estadual Odete Valadares, até completar a 8ª série, e brincadeiras, algumas em casa com amigos e primos, e outras na rua.” Já as férias eram aproveitadas no sítio do vô Tota, onde conta que “o dia começava ao raiar do dia e terminava com o cair da noite.” 

Arte e Advocacia moldaram sua identidade

Para Sissy, o teatro e advocacia nunca foram caminhos opostos: ambas cresceram juntas e ajudaram a moldar sua identidade. O universo jurídico esteve presente desde a infância. Sua tia, Tereza Cristina de Moura, advogada hoje aposentada, mantinha um escritório onde ela passava boa parte do tempo, cercada por livros, processos e clientes.

Também guarda na memória as visitas ao antigo Fórum de Extrema, onde observava, fascinada, o salão do júri, os escreventes e toda a rotina daquele ambiente. “Nunca imaginei que um dia me tornaria advogada“, recorda.

Se o Direito despertava curiosidade, foi a arte que conquistou definitivamente seu coração. Apaixonada por livros, pintura, artesanato e, principalmente por artes cênicas, teve ainda na infância os primeiros contatos com os palcos.

Aos sete anos, durante o primeiro ano do ensino fundamental, participou da montagem de O Sítio do Picapau Amarelo, interpretando Dona Benta. “Decorei todo o texto em um dia. Foi maravilhoso“, relembra. A partir daquele momento, aproveitou cada oportunidade para estar em cena, fosse atuando ou dançando.

Outro grande incentivo veio das aulas de Português da professora Sílvia Olivotti, que estimulava a leitura, a interpretação de textos e pequenas encenações. “Ela fazia meu imaginário voar longe“, conta, reconhecendo a importância da educadora no despertar de sua criatividade.

A paixão pelas artes também atravessou a família. Seu irmão, Francisco de Moura Neto, conhecido como Chico do Tota ou Chiquinho, participou do Grupo de Teatro Sem Teto, durante a adolescência, e compartilhou com ela muitos momentos nos palcos.

Hoje, Sissy procura transmitir esse mesmo amor pela cultura aos sobrinhos, Pedro, de 17 anos, e Laura, de 6. Incentiva a leitura, o teatro e o contato com diferentes manifestações artísticas, não necessariamente para que sigam essa profissão, mas porque acredita que a arte forma cidadãos mais sensíveis, críticos e conscientes.

“Mesmo que eles escolham outro caminho, conhecer a cultura é fundamental. A arte nos ensina a pensar, a refletir e a compreender melhor o mundo. Cultura e educação caminham juntas”, resume.

Assim como precisamos de ar para respirar, preciso de arte para existir, porque a vida sem arte não basta.

Construção da artista

Em 1993, a jornada de Sissy no teatro ganha novo impulso, com a chegada do ator e diretor Elias Kadhira, a Extrema, para apresentação de um espetáculo. Encantado pela cidade, decidiu permanecer e foi convidado a atuar na área cultural do município. Entre suas iniciativas, promoveu uma oficina de teatro que se tornaria um divisor de águas na vida da jovem extremense.

“Na época, mais de 50 pessoas participaram da atividade, mas, à medida que o tempo passava, o grupo foi diminuindo”. Para Sissy, porém, acontecia justamente o contrário: quanto mais contato tinha com o teatro, maior se tornava sua paixão pela arte. Foi nesse período que participou de seu primeiro espetáculo, “Vampiresco”, adaptação de um livro encontrado na biblioteca da Escola Odete Valadares. A montagem percorreu Extrema, Bragança Paulista e cidades da região, despertando o interesse do público e fortalecendo o grupo.

Dessa experiência nasceu o Grupo de Teatro Amador Sem Teto, nome que refletia a realidade dos artistas da época. “Sem um espaço fixo para ensaios nos reuníamos onde fosse possível: nas praças, nas escolas, nas casas dos integrantes e até no salão paroquial. O importante era manter viva a arte e a vontade de criar.”

Com a saída de Elias Kadhira, o grupo decidiu seguir em frente. Em uma direção coletiva, montou o espetáculo “A Família Addams”, texto de Fábio Leme e Ivo Leme. A produção conquistou o público extremense e marcou uma importante fase da cena cultural da cidade.

Naquele mesmo período, Extrema sediou a Mostra Estadual de Teatro da FETEMIG (Federação de Teatro de Minas Gerais), instituição que o grupo já conhecia de eventos anteriores. “A cidade viveu dias intensos de arte e cultura. Artistas de diversas regiões mineiras ocuparam os espaços públicos, transformando o ginásio poliesportivo em alojamento, camarim e praça de alimentação. Os espetáculos aconteciam no clube e nas praças, encantando moradores e visitantes.”

Sissy participou ativamente da produção do evento e também subiu aos palcos com “A Família Addams”, espetáculo que conquistou diversos prêmios, incluindo Melhor Espetáculo. Ela recebeu o prêmio de Melhor Atriz, enquanto a montagem também foi reconhecida nas categorias de figurino, sonoplastia, iluminação e melhor ator, conquistado por Ivo Leme.

Em 1997, outro capítulo importante começou a ser escrito na história da jovem atriz e da arte local. Com o retorno de Rita Miranda a Extrema, surgiu o Movimento Cia. de Teatro, grupo que se tornaria uma das principais referências culturais do município.

Profissionalização abriu portas

Ao longo de sua trajetória, Sissy conquistou a profissionalização artística por meio do tão sonhado DRT, registro que representa uma das maiores realizações para quem vive da arte. A partir daí, surgiram inúmeros projetos culturais e parcerias com secretarias municipais de Cultura, Turismo, Meio Ambiente, Educação, Saúde e Transporte.

Representando Extrema em diversas cidades de Minas Gerais e São Paulo, participou de iniciativas premiadas, entre elas três conquistas do Prêmio Minas Ecologia, desenvolvidas em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Em 2004, ajudou a criar a Extrema Mostra de Teatro, evento que se consolidou como um dos mais importantes do calendário cultural da cidade e que, em 2026, chega à sua 21ª edição, interrompida apenas durante dois anos em razão da pandemia. Vieram ainda projetos como o Ponto de Cultura, que movimentou o cenário artístico local, além das Caixeiras da Serra e diversas outras iniciativas que ajudaram a fortalecer a identidade cultural de Extrema.

Mais do que uma carreira, a trajetória de Sissy se confunde com a própria história do teatro na cidade. Uma caminhada construída com paixão, dedicação e a certeza de que a arte tem o poder de transformar pessoas, preservar memórias e aproximar comunidades.

Essa ligação com a cultura também encontra raízes profundas na própria história de sua família.

Descendente de uma das famílias tradicionais de Extrema, Sissy carrega uma história profundamente ligada às raízes do município. Pelo lado paterno, é filha de José Hamilton de Moura (in memoriam), neta de Terezinha de Jesus Basaglia de Moura e Francisco de Moura Filho, natural de Camanducaia.

Sua árvore genealógica remonta a importantes personagens da história local, como Antônio Basaglia, que atuou diversas vezes como vereador de Extrema, foi vice-prefeito em duas gestões de Gumercindo e também exerceu funções no cartório da cidade antes de se tornar chefe do Posto Fiscal, após aprovação em concurso estadual.

Antônio Basaglia era casado com Leonor de Cunto Basaglia e filho do italiano Henrique Basaglia — originalmente Enrico Basaglia, nome que acabou sendo abrasileirado — e de Rosalina Cardoso Pinto Basaglia. A família também possui laços com o Capitão Germano Cardoso Pinto, Dona Gertrudes e o Coronel Simeão Stylita Cardoso.

Entre as memórias preservadas pela família está o tradicional casarão da Rua João Mendes e o sítio do Morro Grande, propriedades que foram entregues como dote quando Rosalina se casou, um costume comum na época. Os imóveis atravessaram gerações, serviram de lar para seu pai e sua tia e permanecem até hoje na família, carregando histórias, lembranças e um importante legado afetivo.

Pelo lado materno, é filha de Maria Aparecida de Almeida Moura (in memoriam), natural de Consolação (MG), que chegou a Extrema aos nove anos de idade. Professora dedicada, tornou-se uma referência na educação municipal, recebendo uma homenagem póstuma que eternizou seu nome no CEIM dos Tenentes, em reconhecimento à sua contribuição para a formação de gerações de extremenses.

Anos depois, de consolidar-se no teatro, Sissy se formou em Advocacia – integrou a a primeira Turma do curso da FAEX.  

Legado Cultural

Sissy já dividiu os palcos com artistas que marcaram a história cultural de Extrema, como Fábio Leme, Ivo Leme, Andréa Silva, Thiago Felipe, Ana Alice Leme, Osny Almeida, Daniel Régio e Deivid Santana. “Embora não sejam de Extrema, tive o prazer de atuar ao lado de nomes como Mike Meneghell e Rita Miranda, que, além de atriz, dirigiu diversos espetáculos da companhia. E também com uma nova geração de artistas,  Vitor Moraes, Pedro Andrade, Júlia Cardoso e Emili Lima”.

Entre as experiências mais marcantes de sua trajetória está a turnê do espetáculo O Mambembe, viabilizada pela Lei Rouanet. Durante dois anos consecutivos, a montagem percorreu cidades de Minas Gerais e São Paulo, levando o teatro a praças públicas de pequenos municípios.

Encenada sobre um caminhão-palco, a peça emocionava e divertia plateias que, muitas vezes, assistiam a um espetáculo teatral pela primeira vez. “Era gratificante ver a alegria das pessoas e perceber que a arte chegava a quem talvez nunca tivesse tido essa oportunidade“, recorda.

Seu envolvimento com a cultura também ultrapassou os palcos. Participou ativamente da organização da classe artística para que Extrema integrasse o Sistema Nacional de Cultura (SNC), processo que resultou na criação do Conselho Municipal de Cultura.

Representando as artes cênicas pela sociedade civil organizada, integrou o conselho por três mandatos, exercendo a vice-presidência na primeira gestão e a presidência nas duas seguintes.

O compromisso com a cultura caminha lado a lado com o amor pela cidade. “Extrema é minha casa, minha terra. Minhas raízes estão aqui. Caminho pelas ruas e reconheço minha ancestralidade em cada canto. Acho que me confundo um pouco com a cidade, porque sou feita desse barro”, define.

Ela reconhece que Extrema evoluiu significativamente nas últimas décadas e observa uma mudança positiva na forma como a arte passou a ser valorizada. Ainda assim, acredita que o município precisa ampliar os investimentos em políticas públicas culturais, fortalecendo projetos e mecanismos de incentivo para que artistas de todas as áreas possam continuar produzindo e levando suas expressões criativas à comunidade.

Entre todas as iniciativas das quais participou, uma ocupa um lugar especial em seu coração: a Extrema Mostra Teatro. Criada em 2004, a mostra chega à sua 21ª edição consolidada como um dos principais eventos culturais da região, interrompida apenas durante os dois anos da pandemia.

Para Sissy, o maior legado do projeto é democratizar o acesso ao teatro, levando espetáculos gratuitos e de reconhecida qualidade artística à população. Ao longo desses anos, o evento recebeu artistas premiados nacionalmente e atraiu públicos de diversas cidades.

Ela guarda com emoção histórias como a chegada de idosos de Joanópolis em vans especialmente organizadas para assistir às apresentações e de estudantes de Toledo que tiveram, ali, seu primeiro contato com o teatro. “A arte precisa chegar a todos”, ressalta.

O olhar para o futuro continua sendo movido pelos sonhos. Um deles é criar um centro cultural que reúna a história de sua família — profundamente ligada à trajetória de Extrema — e, ao mesmo tempo, ofereça oficinas de teatro, pintura, cinema e outras manifestações artísticas. Enquanto esse projeto amadurece, segue dedicada ao Movimento Cia. de Teatro, ao Ponto de Cultura e à realização da 21ª Extrema Mostra Teatro.

Depois de mais de três décadas dedicadas à cultura, Sissy continua acreditando que a arte é capaz de transformar pessoas, fortalecer comunidades e preservar histórias. Aos jovens que sonham com uma carreira nas artes, Sissy diz: “Insistam, persistam e não desistam. Pode não ser fácil, mas fazer o que se ama é profundamente gratificante.”

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